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Capítulo 10
MANTIVE A CABEÇA BAIXA durante o jantar. No Salão das Mulheres, fui
corajosa porque Marlee estava ao meu lado, e ela me achava legal. Mas ali,
espremida entre duas pessoas que emitiam ondas de ódio na minha direção, não
passava de uma covarde. E Ashley, com todo o seu jeito de dama, fazia bico e
não falava comigo. Eu só queria fugir para o quarto.
Não entendia
por que aquilo era tão importante. As pessoas gostavam de mim, e daí? Elas não
tinham poder no palácio. Seus cartazes e incentivos não importavam.
Depois de
tudo o que foi dito e feito, eu não sabia se me sentia honrada ou incomodada.
Concentrei
minhas forças no jantar. A última vez em que vira um bife tinha sido no Natal,
alguns anos antes. Minha mãe tinha feito o melhor que podia, mas não tinha
chegado nem perto daquele bife. Era suculento, tenro e saboroso. Queria
perguntar a alguém se também era o melhor bife que tinha comido na vida. Se
Marlee estivesse por perto, perguntaria a ela. Tentei ver minha amiga pelo
canto dos olhos em algum lugar da sala. Ela conversava tranquilamente com as
pessoas a seu redor.
Como fazia
isso? Por acaso a mesma gravação não a tinha apontado como uma das favoritas?
Por que as pessoas ainda falavam com ela?
A sobremesa
consistia em frutas variadas e sorvete de baunilha. Nunca tinha comido coisa
igual. Se isso era comida, o que era aquilo que eu tinha posto na boca até
então? Pensei em May e em como gostava de doces tanto quanto eu. Ela teria
adorado a sobremesa. Podia apostar que se daria muito bem ali.
Ninguém
tinha autorização para deixar a mesa até que todas tivessem terminado. Depois
disso, recebemos ordens estritas para ir direto para a cama.
— Afinal,
vocês vão conhecer o príncipe Maxon pela manhã e vão querer estar bem dispostas
e apresentáveis — explicou Silvia. — Ele é o futuro marido de alguém nesta
sala, afinal.
Algumas garotas
suspiraram diante dessa perspectiva.
O toc-toc
dos sapatos subindo as escadarias era mais baixo dessa vez. Eu mal podia
esperar para tirar os meus. E o vestido também. Tinha uma muda de roupas na
mala e estava pensando se as usaria apenas para sentir que era eu mesma por uns
instantes.
O grupo se
dispersou no alto da escada e cada menina foi para seu quarto. Marlee me puxou
de lado.
— Você está
bem? — ela perguntou.
— Estou. É
que umas garotas ficaram me olhando torto durante o jantar — respondi, tentando
não parecer reclamona.
— Elas só
estão nervosas porque todo mundo gostou tanto de você — Marlee garantiu, não
dando muita importância ao comportamento das outras.
— Mas as
pessoas também gostaram de você. Eu vi os cartazes. Por que as meninas não foram
umas chatas com você também?
— Você nunca
passou muito tempo com um grupo de garotas, passou? — ela tinha um sorriso
malicioso nos lábios, como se soubesse o que estava acontecendo.
— Não. Quase
sempre fico só com minhas irmãs — confessei.
— Você foi
educada em casa?
— Sim.
— Bem, eu
estudo com um monte de outras garotas da casta Quatro na minha província. Cada
uma delas tem seu jeito de pisar no calo das outras. Elas querem conhecer a
pessoa, descobrir o que mais a irrita. Várias meninas me fazem elogios falsos
ou comentários atravessados, coisas assim. Eu sei que pareço eufórica, mas no
fundo sou tímida, e elas acham que podem me atingir com palavras.
Cocei a
cabeça. Então elas faziam de propósito?
— E ainda
mais você, uma pessoa quieta e misteriosa...
— Não sou
misteriosa — cortei.
— É um
pouco. E às vezes as pessoas não sabem se interpretam o silêncio como confiança
ou medo. Elas olham como se você fosse um inseto para que você talvez se sinta
como se fosse.
— Hum...
Fazia
sentido. Comecei a pensar se meus modos de certa forma não cutucavam a
insegurança das outras.
— O que você
faz? Quero dizer, como você tira o melhor delas? — perguntei a Marlee.
Ela sorriu.
— Ignoro.
Conheço uma garota na minha cidade que fica muito irritada quando não consegue
me incomodar e acaba de cara fechada. Então, não se preocupe — ela continuou. —
Tudo o que você precisa fazer é não deixar que percebam que estão atingindo
você.
— Elas não
estão.
— Estou
quase acreditando — disse Marlee dando uma risadinha, um som cálido que evaporou
naquele corredor quieto. — E você acredita que vamos conhecer o príncipe
amanhã? — ela perguntou, passando para o assunto que considerava mais
importante.
— Na
verdade, não.
Maxon
parecia um fantasma assombrando o palácio. Fazia parte dele, mas não estava lá
de fato.
— Bem, boa
sorte — ela desejou, e eu sabia que era de coração.
— Mais sorte
ainda para você, Marlee. Tenho certeza de que o príncipe vai ficar mais do que
encantado ao conhecer você.
Apertei as
mãos dela. Marlee sorriu de um jeito emocionado e tímido ao mesmo tempo, depois
foi para o quarto.
Quando me
dirigia ao meu escutei Bariel resmungar alguma coisa com a dama de companhia.
Ela me viu e bateu a porta na minha cara.
Muito
educada.
Minhas
criadas estavam no quarto, claro, esperando para me despir e me lavar. Minha
camisola, uma coisinha verde e frágil, já tinha sido estendida na cama. Elas
tiveram a delicadeza de não tocar na minha mala.
As criadas
eram eficientes e cuidadosas. Era óbvio que sabiam de cor essa rotina do fim do
dia, mas não a faziam às pressas. Acho que a intenção delas era oferecer
conforto, mas eu queria mesmo era despachá-las. Não podia apressá-las enquanto
lavavam minhas mãos, desamarravam meu vestido e punham o broche prateado com
meu nome na camisola. Enquanto faziam essas coisas, elas ainda lançavam
perguntas que me deixavam incrivelmente constrangida. Eu tentava responder sem
ser grossa. Sim, eu tinha visto as outras meninas; não, elas não falavam muito;
sim, tinha sido um jantar fantástico; não, eu só ia conhecer o príncipe no dia
seguinte; sim, eu estava muito cansada.
— E ia me
ajudar muito a espairecer se pudesse passar um tempo sozinha — acrescentei ao
final da última resposta, na esperança de que entendessem a deixa.
Na verdade,
elas ficaram com um ar decepcionado. Tentei consertar.
— Vocês
todas são muito prestativas. É que estou acostumada a ficar um pouco sozinha. E
fiquei rodeada de gente o dia todo.
— Mas
senhorita Singer, é nosso dever ajudá-la. É nosso trabalho — replicou Anne, que
parecia ser a chefe delas. Ela estava à frente de tudo, Mary era a mais sossegada
e Lucy parecia bem tímida.
— Gosto
muito do trabalho de vocês, e com certeza vou precisar de ajuda para começar o
dia amanhã. Mas esta noite só preciso relaxar. Se quiserem ajudar, um tempo
sozinha seria bom para mim. E se vocês estiverem bem descansadas pela manhã,
estou certa de que poderão fazer tudo da melhor maneira, não acham?
Elas
trocaram olhares.
— Bem, imagino
que sim — concordou Anne.
— Uma de nós
deve ficar aqui enquanto a senhorita dorme. Caso precise de algo — disse Lucy,
aparentando nervosismo, como se temesse a decisão que eu tomaria. Ela parecia
dar uma leve tremida de vez em quando. Acho que era a timidez vindo à tona.
— Se eu
precisar de algo, toco a campainha. Vai ficar tudo bem. Além disso, eu não ia
conseguir dormir sabendo que alguém está me vigiando.
Elas
trocaram olhares de novo, ainda um pouco céticas. Eu sabia um jeito de pôr fim
nisso, mas detestava ter que usá-lo.
— Vocês
devem obedecer todas as minhas ordens, certo?
Elas
concordaram com a cabeça, esperançosas.
— Então eu
ordeno que vão para a cama e me ajudem amanhã de manhã. Por favor.
Anne sorriu.
Acho que ela estava começando a me entender.
— Sim,
senhorita Singer. Nós a veremos pela manhã.
As três
fizeram uma reverência e saíram do quarto. Anne me lançou um último olhar. Acho
que eu não era exatamente o que ela esperava, mas não parecia estar muito
irritada com isso.
Assim que
elas saíram, descalcei minhas luxuosas pantufas e estiquei os dedos dos pés no
chão. Ficar descalça dava uma sensação boa, natural. Comecei a desfazer minha
mala, o que foi rápido. Mantive minha muda de roupa enfiada na mala e a guardei
no armário gigantesco. Dei uma olhada nos vestidos. Eram poucos, o suficiente
para mais ou menos uma semana. Acho que as outras tinham o mesmo número de
vestidos. Por que fazer dúzias para uma garota que talvez saísse no dia
seguinte?
Peguei as
poucas fotos que tinha da minha família e prendi na moldura do espelho. Era tão
alto e largo que podia ver as fotos sem tapar a visão do meu corpo. Eu tinha
uma caixinha com bijuterias e laços que eu adorava. Provavelmente seriam
considerados simples demais ali, mas eram tão pessoais que eu tive que levá-los
comigo. Os poucos livros que carregara encontraram um lugar na útil prateleira
próxima da porta que levava para a sacada.
Enfiei a
cabeça pela porta e vi o jardim. Havia um labirinto de alamedas com bancos e
fontes. As flores brotavam de toda parte, e cada uma delas estava perfeitamente
podada. Para além desse pedaço de terra claramente produzido ficava um campo
aberto, e mais adiante havia uma floresta imensa. Estiquei-me ao máximo, mas
não consegui ver se toda ela ficava dentro dos muros do palácio. Pensei por
alguns minutos por que motivo ela existia, e então deparei com o último item de
casa que segurava nas mãos.
Meu pequeno
jarro com a moedinha dançante. Rolei-o nas mãos algumas vezes, escutando-a
deslizar pelos cantos do vidro. Por que eu tinha levado aquilo? Para me lembrar
de algo que não podia ter?
Esse simples
pensamento – de que o amor que tinha construído por anos em um lugar quieto e
secreto estava fora de alcance – fez meus olhos se encherem de lágrimas. Eu não
conseguia aguentar mais essa depois de toda a emoção daquele dia. Não sabia
onde o jarro ficaria, mas deixei-o no meu criado-mudo.
Baixei as
luzes, arrastei-me sobre aqueles cobertores luxuosos e olhei para o jarro.
Deixei-me levar pela tristeza. Deixei meu pensamento ir até ele.
Como eu
podia ter perdido tanto em tão pouco tempo? Pensava que deixar minha família,
viver em um lugar estranho e ser separada da pessoa amada eram acontecimentos
que demoravam anos para ocorrer, não apenas um dia.
Eu me
perguntava o que exatamente ele queria me dizer antes de eu partir. A única
coisa que pude deduzir era que não se sentia à vontade para falar em voz alta.
Seria sobre ela?
Olhei
fixamente o jarro.
Será que ele
queria pedir desculpas? Eu tinha lhe dito poucas e boas na noite anterior.
Talvez fosse isso.
Será que ele
queria dizer que tinha me superado? Bem, eu tinha visto claramente que sim, não
havia por que dizer.
Será que ele
queria dizer que não tinha me superado? Que ainda me amava?
Afastei o
pensamento. Não podia deixar aquela esperança crescer dentro de mim. Eu
precisava odiá-lo. Esse ódio me faria avançar. Ficar o mais distante dele pelo
maior tempo possível era grande parte do motivo de estar ali.
Mas a
esperança doía. E com ela vieram as saudades de casa. A vontade de que May
fosse escondida até minha cama, como fazia às vezes. E o medo de que as outras
meninas me quisessem fora e continuassem me diminuindo. Depois o nervosismo de
aparecer na TV para o país inteiro. E o terror de que alguém tentasse me matar
como forma de protesto político. Tudo veio rápido demais para que minha cabeça
confusa desse conta de processar num dia tão longo.
Minha vista
ficou embaçada. Nem reparei quando comecei a chorar. Não conseguia respirar.
Estava tremendo. Pulei da cama e corri até a sacada. O pânico era tanto que
demorei um pouco para abrir a trava, mas consegui. Pensei que o ar fresco me
faria bem, mas não fez. Minha respiração continuava curta e fria.
Não existia
liberdade ali. As barras da sacada me mantinham presa. E eu podia ver os muros
ao redor do palácio: altos, com guardas em pontos estratégicos. Precisava sair
do palácio e ninguém ia permitir que isso acontecesse. O desespero me deixou
ainda mais fraca. Olhei para a floresta. Poderia apostar que nem de lá conseguiria
ver nada além do verde.
Voltei para
dentro e travei a porta da sacada. Estava um pouco insegura com aquelas
lágrimas nos olhos, mas consegui sair do quarto. Corri pelo único corredor que
conhecia sem ver a arte, a tapeçaria ou os batentes dourados. Quase não percebi
os guardas. Eu não conhecia muito bem o castelo, mas sabia que se descesse as escadas
e virasse à direita ia encontrar as enormes portas de vidro que davam para o
jardim. Eu só queria chegar até essas portas.
Corri pela
imponente escadaria. Meus pés descalços soavam como tapinhas no chão de
mármore. Havia mais um punhado de guardas, mas nenhum deles me parou. Quer
dizer, não até eu chegar ao lugar que buscava.
Como antes,
dois homens montavam guarda ao lado das portas, e quando tentei correr até
elas, um dos homens se pôs à minha frente, e o bastão em forma de lança impediu
minha saída.
— Perdoe-me,
mas a senhorita deve voltar para o quarto — ele ordenou, com autoridade. Ainda
que não falasse alto, sua voz trovejava em meio ao silêncio do elegante
corredor.
— Não...
não... Eu preciso... sair — as palavras se misturavam; eu não conseguia
respirar direito.
— Senhorita,
vá para seu quarto agora.
O segundo
guarda caminhava na minha direção.
— Por favor
— comecei a arfar.
Pensei que
ia desmaiar.
— Sinto
muito... senhorita America, certo? — ele achou meu broche. — A senhorita deve
voltar para o quarto.
— Eu... não
consigo respirar — gaguejei e caí nos braços do guarda que se aproximava para
me empurrar.
O bastão
dele caiu no chão. Agarrei-me a ele já sem forças. O esforço me deixou tonta.
— Deixem-na
sair!
Era uma voz
jovem, mas cheia de autoridade. Minha cabeça se voltou em sua direção, um pouco
de propósito e um pouco sem querer. Ali estava o príncipe Maxon. Ele parecia um
tanto estranho graças ao ângulo em que minha cabeça pendia, mas reconheci o
cabelo e o jeito travado.
— Ela
desmaiou, Alteza. Queria sair.
O primeiro
guarda parecia nervoso ao tentar explicar. Ele se meteria em uma encrenca
terrível se me machucasse. Eu era propriedade de Illéa.
— Abram as
portas.
— Mas...
Alteza...
— Abram as portas
e deixem-na sair. Agora!
— Imediatamente,
Alteza.
O primeiro
guarda tratou de obedecer, sacando uma chave. Minha cabeça continuava numa
posição estranha enquanto eu ouvia o tilintar das chaves e o ruído que uma
delas produziu ao encaixar na fechadura. O príncipe me olhava com atenção
enquanto eu tentava ficar em pé. Foi quando o cheiro doce do ar fresco tomou
conta de mim e me deu toda a motivação de que precisava. Soltei-me dos braços
do guarda e corri como uma bêbada para o jardim.
Eu ainda
tropeçava um pouco, mas não me importava de parecer menos graciosa. Só
precisava ficar lá fora. Deixei meu corpo sentir o ar morno na pele, a grama
sob os pés. De algum modo, até a natureza parecia extravagante ali. Eu queria
percorrer todo o caminho até as árvores, mas minhas pernas só podiam me
carregar até aquele ponto. Cambaleei diante de um pequeno banco e ali fiquei:
com a camisola verde e fina sobre a terra e a cabeça apoiada no braço sobre o
assento.
Meu corpo
não tinha forças para soluçar, então as lágrimas desceram em silêncio. Ainda
assim, tiraram toda a minha concentração. Como tinha chegado até ali? Como eu
tinha deixado isso acontecer? O que seria de mim? Algum dia eu conseguiria pelo
menos um pedaço da vida que tinha antes disso de volta? Eu simplesmente não
sabia. E não havia nada que pudesse fazer quanto a isso. Estava tão perdida em
meus pensamentos que só percebi que tinha companhia quando o príncipe Maxon
começou a falar comigo.
— Está tudo
bem, querida? — ele perguntou.
— Eu não sou
sua querida.
Levantei a
cabeça para encará-lo. Era impossível não notar o nojo no meu tom de voz e nos
meus olhos.
— O que eu
fiz para ofender a senhorita? Por acaso não lhe dei exatamente o que queria?
Ele ficou
confuso com a minha resposta. Acho que esperava que o adorássemos e
agradecêssemos aos astros por sua existência.
Encarei-o
novamente, sem medo, embora não tivesse dúvida de que o efeito fora diluído
pelas lágrimas nas minhas bochechas.
— Com
licença, querida, mas você vai continuar chorando? — ele perguntou, parecendo
muito incomodado com minhas lágrimas.
— Não me
chame assim! Não sou mais querida para você do que as outras trinta e quatro
estranhas que você mantém aqui nessa jaula.
Ele se
aproximou, sem parecer minimamente ofendido por minhas palavras vis. Só
parecia... pensativo. Havia uma expressão interessante em seu rosto.
O príncipe
tinha um andar gracioso para um rapaz, e parecia incrivelmente confortável
dando voltas ao meu redor. Minha coragem se desmanchou um pouco diante da
estranheza da situação. Ele estava completamente vestido, com seu terno
ajustado, e eu estava encolhida e seminua. Se sua posição na hierarquia já não
me assustava muito, sua atitude ainda assustava. Ele devia ter vasta
experiência em lidar com pessoas infelizes; suas respostas eram
excepcionalmente calmas.
— Sua afirmação
é falsa. Todas vocês são queridas por mim. Trata-se simplesmente de descobrir
quem há de ser a mais querida.
— Você disse
mesmo “há de ser”?
Ele segurou
uma risada.
— Receio que
sim. Perdoe-me. É fruto da minha educação.
— Educação —
resmunguei. — Ridículo.
— Perdão?
— É
ridículo! — gritei, recuperando um pouco de coragem.
— O que é
ridículo?
— O
concurso! Tudo! Você nunca amou ninguém na vida? É assim que quer escolher sua
mulher? Você é baixo a esse ponto?
Ajeitei-me
um pouco no chão. Para facilitar minha vida, ele se sentou no banco, de modo
que eu não precisava mais me torcer. Eu estava muito brava para agradecer.
— Entendo
que possa dar essa impressão, que tudo possa ser visto como entretenimento
barato. Mas meu mundo é muito fechado. Não conheço tantas mulheres. As poucas
que conheço são filhas de diplomatas, e geralmente temos pouquíssimos assuntos
em comum. Isso quando falamos a mesma língua.
Maxon achava
aquilo engraçado e deu uma risadinha. Não fiquei impressionada. Ele limpou a
garganta.
— Sendo
essas as circunstâncias, nunca tive a oportunidade de me apaixonar. E você?
— Tive —
respondi na lata.
Logo que as
palavras saíram de minha boca, quis pegá-las de volta. Era um assunto particular,
não era da conta dele.
— Então você
teve muita sorte — havia um pouco de ciúme em sua voz.
Imagine só!
A única coisa que eu podia atirar na cara do príncipe de Illéa era exatamente
aquilo que eu queria esquecer.
— Minha mãe
e meu pai se casaram assim e são muito felizes. Tenho esperança de alcançar a
felicidade, de encontrar uma mulher que toda a Illéa possa amar, alguém que
possa ser minha companheira e me ajude a receber os líderes de outras nações.
Alguém que seja amiga dos meus amigos e minha confidente. Estou pronto para
encontrar minha esposa.
Algo em sua
voz me abalou. Não havia nenhum traço de sarcasmo. Aquilo que parecia pouco
mais que um programa de TV para mim era a única chance que o príncipe tinha de
ser feliz. Ele não podia pedir um segundo lote de mulheres. Bom, talvez
pudesse, mas seria vergonhoso. Estava tão desesperado, tão esperançoso... Senti
minha raiva por ele diminuir. Um pouco.
— Você
realmente acha que aqui é uma jaula? — os olhos dele estavam cheios de
compaixão.
— Sim, eu
acho — minha voz saiu calma. Rapidamente acrescentei: — Majestade.
Ele riu.
— Eu mesmo
já pensei nisso mais de uma vez. Mas você deve admitir que é uma jaula muito
bonita.
— Para você.
Encha sua jaula com mulheres brigando pela mesma coisa e veja que legal é.
Ele levantou
as sobrancelhas.
— Mas já
ocorreram discussões por minha causa? Será que vocês não percebem que sou eu
que faço a escolha? — ele disse, rindo.
— Na
verdade, não é bem assim. Elas brigam por duas coisas. Algumas por você, outras
pela coroa. E todas pensam já saber o que falar e dizer para que sua escolha
seja óbvia.
— Ah, sim. O
homem ou a coroa. Receio que algumas não saibam ver a diferença — afirmou,
balançando a cabeça.
— Boa sorte
com isso — comentei, seca.
Tudo ficou
calmo depois dessa demonstração de sarcasmo. Olhei para ele com o canto dos
olhos, desejando que dissesse algo. O príncipe fitava a grama com o rosto cheio
de preocupação. Parecia que essa ideia o estava infernizando já havia algum
tempo. Ele respirou fundo e se voltou para mim.
— E você,
pelo que luta?
— Na verdade,
estou aqui por engano.
— Engano?
— É, mais ou
menos. Bem, é uma longa história... Estou aqui. E não estou lutando. Meu plano
é aproveitar a comida até você me chutar.
Ele riu
tanto que se inclinou para trás e deu um tapa no joelho. Uma mistura bizarra de
rigidez e calma.
— O que você
é?
— Como?
— Dois? Três?
Será que ele
não prestava atenção?
— Sou Cinco.
— Ah, sim.
Então a comida deve ser um bom motivo para ficar.
Ele riu de
novo e continuou:
— Sinto
muito, não consigo ler seu broche no escuro.
— Meu nome é
America.
— Muito bem,
perfeito.
Os olhos de
Maxon se perderam na noite e ele sorriu sem motivo aparente. Algo nisso tudo o
impressionava.
— America,
minha querida, espero muito que encontre algo nesta jaula por que valha a pena
lutar. Depois de tudo isso, não posso deixar de imaginar como seriam as coisas
se você realmente se esforçasse.
Ele desceu
do banco e se agachou ao meu lado. Estava perto demais. Eu não conseguia pensar
direito. Talvez estivesse um pouco ofuscada pela fama dele. Ou ainda um pouco
abalada pelo choro. Em todo caso, estava chocada demais para reclamar quando
pegou minha mão.
— Se isso a
deixar feliz, posso informar aos funcionários que você prefere ficar no jardim.
Assim, você pode vir aqui à noite sem ser incomodada pelos guardas. No entanto,
acho que seria bom se houvesse sempre um deles por perto.
Eu queria.
Qualquer tipo de liberdade me parecia uma bênção, mas eu precisava ter certeza
absoluta de meus sentimentos.
— Não... não
sei se quero algo que venha de você — eu disse, puxando meus dedos daquela mão
que me segurava de leve.
Ele ficou um
pouco surpreso e magoado.
— Como
quiser.
Senti mais
arrependimento. Não gostar daquele cara não significava que eu podia magoá-lo.
— Você vai
voltar para dentro daqui a pouco? — ele perguntou.
— Sim —
respondi com um suspiro, olhando para o chão.
— Então vou
deixá-la com seus pensamentos. Haverá um guarda perto da porta esperando.
— Obrigada,
errr... Alteza.
Balancei a
cabeça. Quantas vezes eu o tinha tratado indevidamente na conversa?
— Querida
America, você poderia me fazer um favor? — ele pegou minha mão novamente.
Parecia muito persistente.
Olhei-o com
o canto dos olhos, sem saber direito o que dizer.
— Talvez —
repliquei.
Seu sorriso
voltou.
— Não conte
isso às outras. Tecnicamente, não devo conhecê-las até amanhã. Não quero
irritar ninguém. Embora não possa dizer que seus gritos tenham qualquer
semelhança com um encontro romântico, não acha?
Foi minha
vez de sorrir:
— Nem de
longe! — respirei fundo e acrescentei: — Não contarei.
— Obrigado.
Ele encostou
os lábios na minha mão. Antes de se afastar, pousou-a delicadamente sobre
minhas pernas.
— Boa noite
— concluiu.
Olhei para o
local do beijo na minha mão, atônita por uns segundos. Então voltei o rosto
para ver Maxon sair e me dar a privacidade que eu passara o dia querendo.

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