a seleção
Capítulo 13
NÃO TIVE MUITO TEMPO para
me sentir envergonhada ou preocupada. Quando as criadas vieram me
vestir de manhã sem nenhum sinal de apreensão, entendi que minha
presença na sala de jantar seria bem-vinda. O fato de Maxon me deixar
tomar café foi um gesto de generosidade que não esperava dele: eu teria
direito a uma última refeição, um momento final como uma das
Selecionadas.
Já estávamos no meio do café quando Kriss finalmente juntou coragem para perguntar sobre o encontro.
— Como foi? — ela perguntou discretamente, como deveria ser durante as refeições.
Essas duas palavrinhas
espicharam orelhas à minha esquerda e à minha direita. Todas ao redor
começaram a prestar atenção. Respirei fundo e respondi.
— Indescritível.
As garotas se entreolharam, querendo mais detalhes.
— Como ele se comportou? — indagou Tiny.
— Humm... — procurei escolher bem as palavras. — Bem diferente de como eu esperava.
Dessa vez, escutei resmungos pela mesa.
— Você faz isso de propósito? — irrompeu Zoe. — Porque, se faz, é muita maldade.
Balancei a cabeça. Como poderia explicar?
— Não, nem um pouco. É que...
Mas escapei de tentar formular uma resposta em virtude do barulho que vinha do corredor.
Estranhei os gritos. Ao
longo de meu breve período no palácio, não me lembrava de nenhum som que
chegasse perto de ser alto. Além disso, o ruído dos passos dos guardas,
o abrir e fechar das enormes portas e o bater dos talheres nos pratos
compunham uma espécie de música. Tratava-se do mais completo caos.
A família real parece ter compreendido tudo antes de nós.
— Para o fundo da sala, senhoritas! — gritou o rei Clarkson, correndo até uma janela.
As garotas, confusas e
obedientes, avançaram lentamente até a mesa principal. O rei descia uma
persiana, que não servia apenas para diminuir a luz. Era feita de metal e
rangia ao fechar. Ao lado dele, Maxon baixava outra. E ao lado dele, a
amável e delicada rainha corria para baixar a seguinte.
Foi então que uma onda de
guardas invadiu a sala. Vi alguns deles se perfilarem do lado de fora
um pouco antes das monstruosas portas serem fechadas, trancadas e
reforçadas com barras.
— Eles invadiram a
propriedade, Majestade, mas conseguimos conter o avanço. Seria bom que
as senhoritas saíssem, mas estamos muito próximos da porta...
— Entendido, Markson — o rei respondeu, cortando a frase do militar.
Não precisei de mais para entender. Havia rebeldes dentro dos muros do palácio.
Eu imaginava que isso
fosse acontecer. Tantas hóspedes no palácio, tantos preparativos. Claro
que alguém ia se distrair em algum ponto e relaxar a segurança. E, mesmo
que não fosse fácil entrar, era o momento perfeito para protestar. A
verdade era que a Seleção era um tanto perturbadora. Com certeza os
rebeldes a odiavam, como odiavam tudo em Illéa.
Entretanto, a opinião deles em si não era importante. O importante é que não seria calada facilmente.
Eu me ergui tão depressa
que minha cadeira tombou. Corri até a janela mais próxima para baixar a
persiana de metal. Outras meninas que também tinham percebido a
gravidade da ameaça fizeram o mesmo.
Um instante foi
suficiente para descer aquela coisa, mas encaixá-la no lugar certo era
um pouco mais difícil. Eu tinha acabado de prender a trava do jeito
correto quando algo atingiu o palácio, fazendo com que eu me afastasse
da janela aos gritos até tropeçar em minha cadeira e cair.
Maxon surgiu imediatamente.
— Você está ferida?
Fiz um diagnóstico rápido
de minha condição. Eu devia ter sofrido um arranhão no quadril e estava
assustada, mas nada pior que isso.
— Não, estou bem.
— Para o fundo da sala. Agora! — ele ordenou enquanto me ajudava a sair do chão.
Depois, correu pelo salão despertando as garotas paralisadas de medo e as conduziu para o canto.
Obedeci e disparei para o
fundo da sala, rumo à aglomeração de meninas encolhidas. Algumas
choravam; outras, em choque, olhavam para o vazio. Tiny estava
desmaiada. A figura mais tranquilizadora era o rei Clarkson, que falava
atentamente com um guarda no canto oposto, longe o bastante para não ser
ouvido por nós. Um de seus braços envolvia a rainha para protegê-la, e
ela permanecia ereta e calma a seu lado.
A quantos ataques teria
sobrevivido? Recebíamos notícias de que eles ocorriam várias vezes ao
ano. Aquilo inevitavelmente acabaria com os nervos de alguém. Suas
chances de sobrevivência ficavam cada vez menores... assim como as de
seu marido... e de seu único filho. Os rebeldes com certeza chegariam em
algum momento às circunstâncias perfeitas para obter o que queriam. E,
mesmo assim, ela permanecia ali, de queixo erguido e rosto sereno.
Corri os olhos pelas
outras garotas. Por acaso alguma delas tinha a força necessária para ser
uma rainha? Tiny ainda estava inconsciente nos braços de alguém.
Celeste e Bariel conversavam. Celeste parecia à vontade, mas eu sabia
que não estava. Ainda assim, comparada às outras, ela escondia muito bem
suas emoções. Outras estavam quase histéricas, molhando os vestidos com
lágrimas. Algumas ficaram catatônicas e se recusavam a aceitar a
situação. Seus rostos não tinham expressão, e elas apertavam as próprias
mãos à espera do fim.
Marlee estava chorando, não a ponto de parecer acabada. Segurei seu braço e a levantei.
— Enxugue os olhos e fique direito — eu disse no ouvido dela.
— O quê? — ela gemeu.
— Confie em mim. Faça isso.
Marlee secou o rosto no
vestido e ergueu-se. Ela tocava vários pontos do rosto, talvez para
conferir se a maquiagem não estava borrada. Então se voltou para mim em
busca de aprovação.
— Muito bem. Desculpe ser mandona, mas confie em mim desta vez, por favor.
Eu não gostava de dar
ordens em meio a algo tão preocupante, mas ela precisava se parecer com a
rainha Amberly. Com certeza Maxon procuraria isso em sua escolha, e
Marlee tinha que ganhar.
Ela concordou com a cabeça.
— Não, você está certa. Quer dizer, por enquanto estamos todos a salvo. Eu não deveria ficar tão preocupada.
Concordei, embora ela estivesse errada. Não estávamos todos a salvo.
Havia guardas ao pé das
enormes portas, e coisas pesadas eram atiradas contra as paredes e as
janelas. A sala de jantar não tinha relógio. Eu não fazia ideia de
quanto tempo o ataque já durava, o que me deixou ainda mais ansiosa.
Como saberíamos se eles tinham conseguido entrar? Talvez quando
começassem a arrombar as portas? Será que já tinham entrado e não
sabíamos?
Não pude suportar o peso
da preocupação. Fixei o olhar em um vaso de flores ornamentais – cujo
nome ignorava completamente – e roí uma das unhas feitas com perfeição
pelas manicures do palácio. Fingi que aquelas flores eram a coisa mais
importante do mundo.
Maxon acabou por aparecer
para verificar se eu estava bem, como tinha feito com as outras. Ele se
pôs ao meu lado e começou a observar as flores também. Nenhum de nós
sabia o que dizer.
— Tudo bem com você? — ele finalmente perguntou.
— Sim — sussurrei.
O príncipe se deteve por um momento.
— Você não parece bem.
— O que vai acontecer com as criadas? — perguntei, manifestando minha maior preocupação.
Eu sabia que estava a
salvo, mas onde elas estavam? E se uma delas estivesse caminhando perto
do muro quando os rebeldes entraram?
— As criadas? — ele perguntou com um tom de voz que dava a entender que eu era uma idiota.
— Sim, as criadas.
Olhei nos olhos dele,
forçando-o a reconhecer que somente uma privilegiada minoria entre os
que moravam no palácio tinha proteção de verdade. Eu estava a ponto de
chorar, mas não queria que as lágrimas viessem. Acelerei a respiração
para manter as emoções sob controle.
Maxon me olhou nos olhos e
pareceu entender que por apenas um degrau eu mesma não era uma criada.
Não era esse o motivo da minha preocupação, mas era muito estranho que
um sorteio fosse a principal diferença entre mim e uma pessoa como Anne.
— Elas devem estar
escondidas. Também têm onde esperar o fim dos ataques. Os guardas avisam
rapidamente todo mundo. Elas vão ficar bem. Costumávamos ter um sistema
de alarme, mas na última invasão os rebeldes o destruíram
completamente. Estamos tentando consertar, mas... — ele suspirou.
Olhei para o chão, na tentativa de aplacar todas aquelas preocupações na minha cabeça.
— America... — Maxon clamou.
Levantei o rosto.
— Elas estão bem. Os rebeldes agiram devagar, e todo mundo aqui sabe o que fazer em caso de emergência.
Concordei. Permanecemos ali, em silêncio, por alguns minutos, até eu perceber que ele estava pronto.
— Maxon — sussurrei.
Ele se voltou para mim, um pouco surpreso de ser tratado com tanta familiaridade.
— Sobre a noite passada.
Eu quero explicar. Quando foram nos preparar para a viagem, um homem
disse que eu jamais poderia rejeitar você. Não importava o que pedisse.
Em nenhuma hipótese.
Ele ficou espantado.
— O quê?
— Pelo que ele me disse,
parecia que você ia pedir algumas coisas. E você mesmo me contou que não
conviveu com muitas mulheres. Depois de dezoito anos... E você
dispensou as câmeras. Fiquei com medo de que chegasse perto demais.
Maxon balançou a cabeça
na tentativa de processar toda aquela informação. Seu rosto, geralmente
tranquilo, contorcia-se de ódio, humilhação e incredulidade.
— Disseram isso a todas? — ele perguntou, aparentemente abismado com a ideia.
— Não sei. Não conheço
muitas meninas que precisam desse tipo de aviso. Elas provavelmente
esperam uma oportunidade para atacar — comentei, apontando a cabeça para
o resto da sala.
O príncipe soltou uma risada sarcástica.
— Mas você não é como elas, até porque não teve receio de me acertar uma joelhada bem ali, certo?
— Eu acertei sua coxa.
— Por favor. Um homem não
precisa de tanto tempo para se recuperar de uma joelhada na coxa — ele
argumentou com a voz cheia de ceticismo.
Deixei escapar uma
risada. Felizmente, Maxon me acompanhou. Foi então que outro projétil
atingiu a janela e interrompemos o riso ao mesmo tempo. Por alguns
instantes, eu esquecera onde estava. Precisava de um pouco mais de
tempo. Minha saúde mental exigia.
— E então, como é ter que lidar com uma sala cheia de mulheres em prantos? — perguntei.
Sua expressão assumiu uma perplexidade cômica.
— Nada no mundo pode ser mais confuso! — ele cochichou rapidamente. — Não tenho a menor ideia de como fazê-las parar.
Eis o homem que ia liderar nosso país: alguém que era vencido por lágrimas. Era engraçado demais.
— Você pode tentar pôr a
mão no ombro delas e dizer que vai ficar tudo bem. Quando choram, as
mulheres nem sempre querem que você resolva o problema. Elas só querem
ser consoladas — sugeri.
— Sério?
— Sim.
— Não pode ser tão simples — ele disse com um misto de dúvida e interesse na voz.
— Eu disse “nem sempre”, e não “nunca”. Mas provavelmente funcionaria com várias garotas aqui.
Ele torceu o nariz.
— Não tenho tanta certeza. Duas delas já perguntaram se eu as deixaria ir embora quando isso chegasse ao fim.
— Pensei que não tínhamos permissão para fazer isso.
Na verdade, eu não
deveria estar surpresa. Se ele tinha autorizado minha permanência como
amiga, não podia dar muita importância a detalhes técnicos.
— O que você vai fazer? — completei.
— O que posso fazer? Não vou manter ninguém aqui contra a própria vontade.
— Talvez elas mudem de ideia — propus com alguma esperança.
— Talvez — ele concordou e
fez uma pausa. — E você? Já está suficientemente assustada para sair? —
o príncipe perguntou com ar quase brincalhão.
— Para ser sincera, pensei que me mandaria embora depois do café — admiti.
— Para ser sincero, também pensei.
Um sorriso tranquilo
nasceu no meu rosto e no dele. Nossa amizade – se é que podíamos chamar
assim – era estranha e cheia de furos, mas pelo menos era honesta.
— Você não respondeu. Quer sair?
Outro abalo na parede. A
ideia era tentadora. Em casa, o pior ataque que tive que enfrentar tinha
sido Gerad tentando roubar minha comida. As garotas ali não se
importavam comigo, as roupas me sufocavam, as pessoas queriam ferir meus
sentimentos e toda aquela história me deixava desconfortável. Mas era
bom para minha família, e eu achava ótimo comer bem. Maxon parecia, de
fato, meio perdido, e eu tinha prometido ajudá-lo. Quem sabe eu mesma
não escolheria a próxima princesa?
Olhei bem nos olhos dele.
— Enquanto você não me enxotar, vou ficando aqui...
Ele sorriu.
— Bom. Você precisa me passar mais dicas, como essa da mão no ombro.
Devolvi o sorriso. Sim, estava tudo dando errado, mas algo de bom sairia disso.
— America, você poderia me fazer um favor?
Assenti.
— Para todos os efeitos,
passamos muito tempo juntos na tarde de ontem. Se alguma garota
perguntar, você poderia explicar que eu não... que eu jamais...
— Claro. E sinto muito mesmo pelo que aconteceu.
— Eu devia saber que se uma das garotas fosse desobedecer a uma ordem seria você.
Uma série de objetos pesados acertou a parede de uma vez, fazendo um punhado de meninas gritar.
— Quem são eles? O que querem? — perguntei.
— Quem? Os rebeldes?
Confirmei com a cabeça.
— Depende de quem responde. E de que grupo você fala — ele explicou.
— Quer dizer que há mais de um grupo?
A informação fez toda a
situação piorar. Se esse era o ataque de um grupo, o que poderiam fazer
dois ou mais juntos? Pareceu-me extremamente injusto que não explicassem
melhor o tema para nós. Até onde eu sabia, um rebelde era um rebelde,
mas Maxon fez parecer que havia uns piores que outros.
— Quantos grupos existem? — perguntei.
— Basicamente dois: os
nortistas e os sulistas. Os nortistas atacam com muito mais frequência.
Estão mais perto de nós. Vivem no chuvoso território de Likely, perto de
Bellingham. Ninguém quer morar lá, quase tudo são ruínas. Eles se
estabeleceram ali como puderam, embora eu ache que vivem migrando. Essa é
uma teoria minha que ninguém escuta. Mas é raro que consigam invadir a
propriedade. Quando conseguem, os resultados são... quase modestos. Acho
que este ataque de agora é obra dos nortistas — Maxon explicou em meio
ao barulho.
— Por quê? O que os faz diferentes dos sulistas?
Maxon pareceu hesitar.
Não tinha certeza se eu podia saber aquilo. Olhou para os lados para ver
se alguém estava ouvindo. Eu também olhei, e vi várias pessoas nos
observando. Celeste, em especial, parecia soltar fogo pelos olhos. Não
consegui sustentar meu olhar por muito tempo. Ainda assim, mesmo com
toda aquela gente observando, ninguém estava suficientemente perto para
ouvir. Maxon tirou a mesma conclusão e se inclinou para cochichar ao meu
ouvido:
— Os ataques dos sulistas são muito mais... letais.
Estremeci.
— Letais?
Ele confirmou:
— Eles vêm apenas uma ou
duas vezes por ano, acho. Todos tentam evitar que eu saiba as
estatísticas, mas não sou idiota: quando eles vêm, pessoas morrem. O
problema é que os dois grupos parecem iguais para nós: esfarrapados,
constituídos na maior parte de homens esguios mas fortes, sem insígnias
que possamos distinguir. Por isso, não sabemos quem está por trás do
ataque antes do fim.
Corri os olhos pela sala.
Muita gente estaria em perigo se Maxon estivesse errado e os rebeldes
da vez fossem sulistas. Lembrei-me novamente das pobres criadas.
— Ainda não entendi. O que eles querem?
Maxon deu de ombros e respondeu:
— Os sulistas querem nos
derrubar. Não sei o motivo, mas imagino que estejam insatisfeitos,
cansados de viver às margens da sociedade. Quer dizer, eles nem são
Oito, em tese, porque não têm nenhuma participação nas relações sociais.
Os nortistas ainda são um mistério. Meu pai diz que querem apenas nos
incomodar, perturbar o governo, mas não penso assim.
Ele pareceu bastante orgulhoso de si mesmo por uns momentos.
— Tenho outra teoria quanto a isso também — concluiu.
— Posso saber qual é?
Maxon hesitou novamente. Dessa vez, talvez não por receio de me assustar, mas por receio de não ser levado a sério.
Ele aproximou os lábios do meu ouvido mais uma vez e sussurrou:
— Acho que eles estão à procura de alguma coisa.
— De quê? — indaguei.
— Isso eu não sei. Mas é a
mesma coisa sempre que os nortistas são expulsos: os guardas são
derrotados, feridos ou amarrados, mas nunca assassinados. É como se os
rebeldes não quisessem ser seguidos. No entanto, sequestram algumas
pessoas de vez em quando, o que é preocupante. E os quartos – bem,
aqueles em que conseguem entrar – ficam uma bagunça. Todas as gavetas
arrancadas, prateleiras reviradas, tapetes jogados longe. Muita
quebradeira. Você não acreditaria se eu lhe dissesse o número de câmeras
que tive de substituir ao longo dos anos.
— Câmeras?
— Sim... — ele disse, um
pouco encabulado. — Gosto de fotografia. Mas, apesar de tudo isso, eles
acabam não levando muita coisa consigo. Meu pai acha minha ideia inútil.
O que um bando de bárbaros analfabetos procuraria? Ainda assim, deve
haver alguma coisa.
Era uma teoria
intrigante. Se eu não tivesse um centavo e soubesse como invadir o
palácio, acho que pegaria todas as joias que encontrasse, qualquer coisa
que pudesse vender. Aqueles rebeldes deviam ter em mente mais que mera
afirmação política ou sua própria sobrevivência quando invadiam o
palácio.
— Você acha tolice? — ele perguntou, tirando-me de minhas divagações.
— Não, não é tolice. É confuso, mas não tolice.
Sorrimos juntos. Dei-me
conta de que se Maxon fosse apenas Maxon Schreave e não Maxon, o futuro
rei de Illéa, seria o tipo de pessoa que gostaria que morasse na casa ao
lado, um vizinho com quem conversar.
Ele limpou a garganta.
— Suponho que eu deveria ver como estão as outras garotas.
— Sim, imagino que muitas delas estão se perguntando por que está demorando tanto.
— E então, parceira, alguma sugestão de quem deve ser a próxima?
Sorri e olhei para trás, para conferir se minha candidata a princesa ainda aguentava firme. E ela aguentava.
— Está vendo aquela loira ali, de rosa? É Marlee. Um doce. Ela é muito gentil e adora filmes. Vá.
Maxon deu uma risadinha e caminhou na direção dela.
O tempo parecia demorar
uma eternidade para passar, mas na verdade o ataque durou pouco mais de
uma hora. Descobrimos depois que ninguém tinha entrado no palácio em si,
apenas na propriedade. Os guardas só dispararam contra os rebeldes
quando eles se dirigiram à porta principal. Isso explicava os tijolos –
arrancados dos muros do castelo – e a comida estragada atirados contra
as janelas.
No fim, dois homens
chegaram perto demais da entrada principal, os guardas atiraram e todos
fugiram. Se a classificação de Maxon estivesse certa, deveriam ter sido
nortistas.
Permanecemos escondidas
por mais um tempo enquanto as imediações do palácio eram revistadas.
Quando tudo voltou ao normal, enviaram-nos de volta para o quarto. Andei
de braços dados com Marlee. Apesar de ter aguentado firme na sala de
jantar, a tensão gerada pelo ataque me deixara exausta. Era bom ter
alguém com quem espairecer.
— Ele deixou você usar calça mesmo depois de perder? — ela perguntou.
Eu tinha começado a falar sobre Maxon logo que pude, porque estava ansiosa para saber detalhes da conversa entre os dois.
— Sim, ele foi muito generoso.
— Acho que o príncipe é charmoso e sabe ganhar.
— Sabe mesmo. E consegue ser até mais gracioso quando descobre a dura realidade do que ganhou.
“Como uma joelhada nas joias reais”, acrescentei mentalmente.
— O que você quer dizer?
— Nada.
Eu não queria ter que explicar o que tinha acontecido.
— Sobre o que vocês conversaram hoje? — continuei.
— Bem, ele perguntou se eu queria vê-lo esta semana.
— Marlee! Isso é ótimo!
— Quieta! — exclamou, conferindo se as outras garotas já tinham subido as escadas. — Estou tentando não alimentar esperanças.
Ficamos em silêncio por um momento até que ela explodiu.
— Quem estou querendo enganar? Estou tão empolgada que mal posso parar em pé! Espero que ele não demore muito para me chamar.
— Se já chamou, tenho certeza de que logo virá atrás de você. Quer dizer, assim que terminar de administrar o país.
Ela riu.
— Não acredito! Quer
dizer, eu sabia que ele era bonito, mas não tinha ideia de como se
comportava. Tive medo de que fosse... pomposo ou coisa parecida.
— Eu também. Mas na verdade ele é...
O que Maxon era de fato?
Ele era meio pomposo mesmo, mas não de um jeito irritante como eu tinha
imaginado. Sem dúvida se comportava como um príncipe, mas mesmo assim,
era tão... tão...
— Normal — completei para Marlee.
Ela já não prestava
atenção em mim. Estava perdida em seus sonhos enquanto caminhávamos. Eu
desejava que esse Maxon ideal que ela tinha construído na cabeça
correspondesse ao real. E também que ela fosse o tipo de mulher que ele
procurava. Dei um tchauzinho quando chegamos à porta do quarto dela e
segui para o meu.
Os pensamentos sobre
Marlee e Maxon deixaram minha cabeça assim que abri a porta. Anne e Mary
estavam agachadas ao lado de Lucy, extremamente abalada. Seu rosto
estava vermelho e lágrimas rolavam por suas bochechas. Suas pequenas
tremidas tinham se convertido em tremores violentos que sacudiam todo o
seu corpo.
— Acalme-se, Lucy. Está tudo bem — dizia Anne em voz baixa enquanto acariciava os cabelos desgrenhados da amiga.
— Já passou. Ninguém se feriu. Você está segura, querida — murmurava Mary, segurando sua mão tensa.
Fiquei chocada demais
para falar. Aquela era a luta particular de Lucy; não era para meus
olhos. Comecei a sair do quarto, mas a criada me segurou antes de eu
cruzar a porta.
— P-p-perdão, senhorita, p-perdão — gaguejou.
As outras duas observavam com rostos apreensivos.
— Não se preocupe. Você está bem? — perguntei antes de fechar a porta para que ninguém mais pudesse ver.
Lucy tentou recomeçar, mas não conseguia juntar as palavras. As lágrimas e os tremores tomavam conta de seu pequeno corpo.
— Ela ficará bem,
senhorita — interveio Anne. — Leva algumas horas, mas ela acaba se
acalmando depois que tudo volta ao normal. Se continuar neste estado,
podemos levá-la para a ala hospitalar.
Depois, baixou o tom de voz e acrescentou:
— Só que Lucy não quer
isso. Se eles julgam que não serve como criada, acabam escondendo você
na lavanderia ou na cozinha. E Lucy gosta daqui.
Será que Anne achava que estava sendo discreta? Estávamos todas ao redor de Lucy, que ouviu perfeitamente essas palavras.
— P-p-por favor, senhorita... Nã-não...
— Ninguém vai denunciá-la — garanti a ela. Depois, dirigi-me a Anne e Mary: — Me ajudem a deitar Lucy na cama.
Pensávamos que seria
fácil carregá-la em três, mas Lucy se contorcia e escorregava de nossas
mãos. Deu um pouco de trabalho, mas conseguimos. Com Lucy embaixo dos
cobertores, o conforto tratou de fazer mais por ela do que nossas
palavras conseguiriam. A tremedeira se tornou mais lenta, e ela mantinha
os olhos fixos no dossel da cama.
Mary se sentou à beira da
cama e começou a cantar baixinho, o que me fez lembrar muito do jeito
que ninava May quando ela ficava doente. Puxei Anne de lado, longe dos
ouvidos de Lucy, e perguntei:
— O que aconteceu? Alguém entrou?
Se tinha sido esse o caso, gostaria ao menos de ser informada.
— Não, não — assegurou
Anne. — Lucy sempre fica assim quando os rebeldes vêm. Só falar neles já
faz com que chore incontrolavelmente. Ela...
Anne baixou a cabeça e
olhou para seus sapatos pretos engraxados, tentando decidir se devia
contar mais. Eu não queria me intrometer na vida de Lucy, mas queria
entender. Ela respirou fundo e começou:
— Algumas de nós nasceram
aqui. Mary nasceu no castelo e seus pais ainda moram aqui. Eu sou órfã,
fui acolhida porque o palácio precisava de mão de obra.
Ela endireitou o vestido, na tentativa de se desprender dessa parte de sua história que parecia incomodá-la.
— Lucy — prosseguiu — foi vendida para o palácio.
— Vendida? Como assim? Não há escravos aqui.
— Oficialmente, não. Mas
isso não quer dizer nada. A família de Lucy precisava de dinheiro para a
cirurgia da mãe. Então ela e o pai ofereceram seus serviços a uma
família de Três. A mãe nunca melhorou, e eles não conseguiram pagar a
dívida. Lucy e o pai serviram aquela família por anos. Pelo que sei, a
vida deles não era muito melhor que a de animais em um estábulo. Mas o
filho dessa família se afeiçoou a Lucy, e eu sei que algumas vezes o
amor não olha castas, mas a distância entre os Seis e os Três é bem
grande. Quando a mãe do rapaz descobriu suas intenções, vendeu Lucy e o
pai para o palácio. Eu me lembro de sua chegada. Ela chorou por vários
dias. Os dois deviam estar muito apaixonados.
Olhei para Lucy. Pelo
menos no meu caso, um de nós tinha tomado uma decisão. Já ela não teve
escolha quando perdeu o homem que amava.
— O pai de Lucy trabalha
no estábulo. Não é forte nem rápido, mas tem uma dedicação incrível. E
Lucy é uma criada. Sei que pode parecer tolice, mas é uma honra ser
criada do palácio. Somos a linha de frente, consideradas suficientemente
aptas, inteligentes e bonitas para serem vistas por qualquer visitante.
Levamos nosso emprego muito a sério por um motivo: se fizermos alguma
besteira, acabamos na cozinha, onde as mãos ficam ocupadas o dia todo e
as roupas são uns farrapos. Podemos ainda acabar cortando lenha ou
recolhendo folhas de árvores no chão. Não é pouco ser criada.
Eu me senti bem burra. Para mim, todas eram apenas Seis. Mas existiam ainda subdivisões, hierarquias que eu ignorava.
— Há dois anos, o palácio
foi atacado no meio da noite. Rebeldes tomaram os uniformes dos guardas
e todos ficaram confusos. Tamanha foi a bagunça que ninguém sabia quem
atacar ou defender, e as pessoas caíam em buracos cavados na linha de
frente. Foi terrível.
Tremi só de pensar. A
falta de luz, a confusão, a imensidão do palácio. Comparado ao ataque da
manhã, parecia ser obra dos sulistas.
— Um dos rebeldes capturou Lucy.
Anne baixou os olhos por um minuto. E pronunciou em voz baixíssima as seguintes palavras:
— Não sei se eles têm muitas mulheres à disposição, se é que a senhorita me entende.
— Ah...
— Não vi pessoalmente, mas Lucy contou que era um homem imundo. Disse que ele lambia o rosto dela.
Anne retesou o corpo ao
imaginar a cena. Meu estômago deu voltas, ameaçando devolver o café da
manhã. Era uma das coisas mais revoltantes em que eu conseguia pensar, e
compreendi então por que Lucy, depois de sofrer tanto, desmontava com
ataques como o daquele dia.
— O rebelde arrastou Lucy
para algum lugar. Ela gritava o mais alto que podia, mas era difícil
ouvir em meio àquela agitação. Um guarda que estava no corredor escutou
os gritos. Mirou e acertou uma bala bem na cabeça do homem. O rebelde
caiu por cima de Lucy, e ela ficou presa embaixo dele. O corpo dela
ficou coberto de sangue.
Levei a mão à boca. Não
podia imaginar a pequena e delicada Lucy passando por tudo aquilo. Não
era de estranhar que tivesse reagido daquela forma.
— Os machucados foram
tratados, mas ninguém cuidou de sua mente. Hoje ela é uma pilha de
nervos, mas faz o possível para esconder. Não apenas para seu bem, mas
também pelo bem de seu pai. Ele tem orgulho de saber que a filha é boa o
suficiente para ser criada. Tentamos manter Lucy calma, mas sempre que
os rebeldes chegam ela pensa que vai ser pior, que dessa vez vão
pegá-la, feri-la, matá-la. Ela está tentando, senhorita, mas não sei por
quanto tempo vai aguentar.
Concordei com a cabeça e
voltei os olhos para Lucy na cama. Ela tinha fechado os olhos e
adormecido, apesar de ainda ser bem cedo.
Passei o resto do dia lendo. Anne e Mary limparam coisas que não estavam sujas. Ficamos quietas enquanto Lucy se recuperava.
Prometi a mim mesma que, no que dependesse de mim, Lucy nunca mais passaria por aquilo.

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