a seleção
Capítulo 23
NA MANHÃ SEGUINTE, acordei
me sentindo um pouco culpada. Assustada até. Ignorar Maxon mexendo em
sua orelha não lhe tirava o direito de entrar no meu quarto quando
quisesse. Seria tão fácil flagrar Aspen e eu. Se alguém desconfiasse do
que eu tinha feito...
Foi uma traição. E no
palácio só havia um jeito de lidar com traidores. Mas uma parte de mim
não se importava. Ao despertar, ainda bêbada de sono, revivi cada olhar
de Aspen, cada toque, cada beijo. Tinha sentido tanta falta daquilo.
Gostaria que tivéssemos
conseguido conversar. Eu realmente precisava saber o que Aspen pensava,
embora ele tivesse deixado algumas pistas na noite anterior. Era
inacreditável que – depois de me esforçar tanto para não o querer mais –
ele ainda me quisesse.
Era sábado, e
teoricamente eu deveria ir para o Salão das Mulheres, mas não ia
aguentar. Precisava pensar, e sabia que não conseguiria se estivesse
rodeada por um falatório incessante. Quando as criadas chegaram, disse a
elas que estava com enxaqueca e que ia ficar na cama.
Elas foram muito
prestativas. Levaram meu almoço e limparam o quarto sem fazer barulho.
Quase me senti mal por ter mentido. Mas eu precisava. Não podia encarar a
rainha e as meninas – e talvez Maxon – com o pensamento preso a Aspen.
Fechei os olhos, mas não dormi. Tentei clarear meus sentimentos.
Não consegui fazer
grandes progressos, contudo. Alguém bateu à porta. Rolei na cama e vi o
rosto de Anne, que me perguntava sem palavras se podia atender.
Sentei-me rapidamente, ajeitei o cabelo e fiz um sinal positivo com a
cabeça.
Rezei para que não fosse
Maxon; tinha medo de que descobrisse o crime estampado em meu rosto. Não
estava, porém, preparada para ver a figura de Aspen entrando pela
porta. Sentei-me ainda mais ereta quase que automaticamente, esperando
que as criadas não tivessem notado minha agitação.
— Com licença, senhorita —
ele disse para Anne. — Sou o soldado Leger. Estou aqui para conversar
com a senhorita America sobre algumas medidas de segurança.
— Claro — Anne disse, com um sorriso maior que o habitual.
Ela estendeu o braço para
dentro do quarto, indicando que Aspen podia entrar. No canto, Mary deu
um cutucão em Lucy, que soltou uma risadinha.
Ao ouvir isso, Aspen se voltou para elas e as cumprimentou levantando um pouco o quepe:
— Senhoritas.
Lucy baixou a cabeça e as
bochechas de Mary ficaram mais vermelhas que meu cabelo, mas nenhuma
das duas respondeu. Anne, embora também movida pela boa aparência de
Aspen, reuniu forças para falar:
— Devemos sair, senhorita?
Pensei um pouco antes de responder. Não queria ser óbvia demais, mas gostaria de um pouco de privacidade.
— Só por uns minutos. Estou certa de que o soldado Leger não precisa de muito tempo — decidi.
As três deixaram o quarto de imediato, e assim que desapareceram porta afora.
— Receio que esteja errada. Preciso de muito tempo com você — e piscou para mim.
— Ainda não acredito que você está aqui — eu disse, meneando a cabeça.
Sem perder tempo, Aspen
tirou o quepe, sentou-se à cabeceira da cama e repousou as mãos de tal
modo que seus dedos roçaram os meus.
— Nunca pensei que veria o
recrutamento como uma bênção, mas, se me der a chance de pedir
desculpas a você, serei infinitamente grato.
Permaneci em um silêncio atônito.
Aspen olhou no fundo dos meus olhos e prosseguiu:
— Por favor, me perdoe,
Meri. Eu fui um idiota. Comecei a me arrepender daquela noite na casa da
árvore no instante em que desci as escadas. Fui teimoso demais para
falar alguma coisa, e depois seu nome foi chamado... Não sabia o que
fazer.
Ele parou por um instante. Parecia ter lágrimas nos olhos. Seria possível que Aspen tivesse chorado por mim como eu por ele?
— Ainda sou muito apaixonado por você — ele concluiu.
Mordi os lábios para segurar as lágrimas. Tinha que me certificar de uma coisa antes de pensar no assunto:
— E Brenna?
Seu queixo caiu.
— Quê?
Tentei respirar fundo e continuei:
— Vi vocês dois juntos na praça durante minha despedida. Vocês terminaram?
O rosto dele se fechou,
concentrado, para depois se abrir em uma gargalhada. Aspen cobriu a boca
com a mão e se jogou de costas na cama para depois se levantar e
perguntar:
— É isso que você acha? Ah, Meri, ela caiu. Tropeçou e eu a segurei.
— Tropeçou?
— Sim, a praça estava
cheia, as pessoas estavam umas em cima das outras. Ela caiu em cima de
mim e fez uma piada sobre ser estabanada, e você sabe que ela é, mesmo
em condições normais.
Lembrei-me da vez em que Brenna caiu na calçada sem nenhum motivo. Por que não tinha pensado nisso antes?
— Assim que me livrei dela, corri para o palco — completou Aspen.
A cena me veio à memória. Aspen tentando desesperadamente chegar perto de mim. Não era fingimento.
— E o que você ia fazer quando chegasse lá? — perguntei.
Ele deu de ombros.
— Não cheguei a pensar
nisso. Pensei em implorar para você ficar. Estava pronto para fazer
papel de idiota se com isso evitasse sua entrada naquele carro. Mas você
parecia tão zangada... e entendo o motivo agora.
Ele respirou alto.
— Eu não ia conseguir falar — continuou. — Além disso, talvez você fosse feliz aqui.
Ele correu os olhos pelo
quarto, viu todas as coisas bonitas que eu podia considerar minhas
temporariamente. Dava para entender porque achava isso.
— Depois — prosseguiu —
imaginei que poderia reconquistar você quando voltasse. — De repente, a
voz dele assumiu um tom de preocupação. — Tinha certeza de que ia querer
sair assim que pudesse. Mas... você não saía.
Ele fez uma pausa e olhou
para mim, mas felizmente não me perguntou quão próximos Maxon e eu
estávamos. Ele já tinha visto um pouco dessa proximidade, mas não sabia
que tínhamos nos beijado e que tínhamos um sinal secreto. E eu não
queria ter que explicar isso.
— Então veio o
recrutamento, e eu julguei que seria injusto escrever para você. Poderia
morrer por aí. Não queria fazer com que me amasse de novo e depois...
— Amar você de novo? — perguntei, incrédula. — Aspen, nunca deixei de amar você.
Com um movimento rápido e
delicado, ele se inclinou e me beijou. Aspen pôs a mão na minha
bochecha, apertando-me contra seu peito. Cada minuto dos últimos dois
anos preencheu meu corpo. Fiquei muito agradecida por não terem
desaparecido.
— Sinto muito — ele murmurou entre os beijos. — Sinto mesmo, Meri.
Ele se afastou e olhou em
meus olhos, com um sorrisinho em seu rosto perfeito. Sua expressão
perguntava exatamente o mesmo que eu. O que íamos fazer?
Nesse exato instante, a porta se abriu e fui tomada pelo pânico quando minhas criadas flagraram Aspen e eu tão próximos.
— Graças aos céus, vocês
voltaram — ele disse, forçando a mão contra minha bochecha antes de
passá-la para minha testa. — A senhorita parece estar com a temperatura
muito baixa.
— O que há de errado? — perguntou Anne.
Seu rosto se encheu de preocupação e ela correu para o lado da cama.
Aspen se levantou e mentiu:
— Ela disse que se sentia mal. Algo com a cabeça.
— Sua dor de cabeça piorou, senhorita? — perguntou Mary. — Seu rosto está tão pálido!
Aposto que sim. Sem
dúvida cada gota de sangue do meu rosto tinha sumido no instante em que
elas nos viram juntos. Mas Aspen, que conseguia manter a calma mesmo sob
pressão, consertou tudo em uma fração de segundo.
— Vou pegar o remédio — avisou Lucy voando para o banheiro.
— Perdoe-me, senhorita —
disse Aspen enquanto minhas criadas punham as mãos à obra. — Não quero
incomodá-la mais. Voltarei quando estiver melhor.
Seus olhos revelavam
aquele rosto que beijei um milhão de vezes na casa da árvore. O mundo ao
nosso redor era completamente novo, mas o elo entre nós dois era o
mesmo de sempre.
— Obrigada, soldado — agradeci com a voz fraca.
Aspen fez uma pequena reverência e saiu.
Em pouco tempo, as criadas já estavam em volta de mim, tentando curar uma doença que nem sequer existia.
Minha cabeça não doía,
mas meu coração, sim. O desejo pelos braços de Aspen era tão familiar
que parecia que nunca havia deixado de senti-lo.
Acordei com Anne me sacudindo violentamente no meio da noite.
— O quê?!
— Por favor, a senhorita precisa se levantar!
Sua voz estava frenética, carregada de terror.
— O que há de errado? Você está machucada? — perguntei.
— Não, não. Temos de levá-la ao porão. Estamos sendo atacados.
Eu estava confusa. Não tinha certeza de ter entendido Anne direito. Mas notei que Lucy já chorava atrás dela.
— Eles entraram? — perguntei sem acreditar.
O lamento aterrorizado de Lucy foi a confirmação de que precisava.
— O que fazemos? — perguntei.
Um pico súbito de
adrenalina me despertou e eu pulei da cama. Meus pés mal tocaram o chão e
Mary já me calçava os sapatos enquanto Anne me cobria com um roupão. Eu
só me perguntava uma coisa. Norte ou sul? Norte ou sul?
— Há uma passagem no
corredor. Ela conduz diretamente ao esconderijo no porão. Os guardas
estarão à sua espera. A família real já deve estar lá, assim como a
maioria das garotas. Rápido, senhorita.
Anne me empurrou para
fora e forçou um trecho da parede, que girou como uma passagem secreta
dos livros de mistério. Certamente havia uma escadaria me esperando
depois da passagem. Enquanto eu estava ali, Tiny passou como um
relâmpago vinda de seu quarto e disparou pelos degraus.
— Muito bem, vamos — eu disse.
Anne e Mary arregalaram os olhos para mim. Lucy tremia tanto que mal podia parar de pé.
— Vamos — repeti.
— Não, senhorita. Vamos para outro lugar. A senhorita precisa se apressar antes que eles cheguem aqui. Por favor!
Sabia que na melhor das
hipóteses elas seriam feridas se os rebeldes as encontrassem; na pior,
elas seriam mortas. Não suportaria saber que alguém as machucaria.
Talvez eu estivesse sendo um pouco convencida, mas se Maxon já tinha
chegado ao ponto de fazer tanta coisa por minha causa, quem sabe elas
não eram importantes para ele por também serem para mim? Mesmo que
tivéssemos brigado... Talvez fosse abusar de sua generosidade, mas eu
não podia deixá-las lá. O medo fez com que eu agisse rápido. Agarrei
Anne pelo braço e a empurrei para dentro. Ela perdeu o equilíbrio e não
conseguiu evitar que eu empurrasse Mary e Lucy.
— Andem! — ordenei.
Elas começaram a andar, mas Anne protestou ao longo de todo o caminho:
— Eles não nos deixarão entrar, senhorita! É um lugar só para a família... Eles vão nos mandar sair!
Não me importei com essas
palavras. Não importava qual fosse o esconderijo delas, não seria mais
seguro do que o da família real.
A escadaria tinha luzes a
cada dois metros, mas mesmo assim quase caí duas vezes em minha pressa.
Minha mente estava cega de tanta preocupação. Quão longe esses rebeldes
já tinham chegado antes? Eles sabiam da existência dessas passagens
secretas? Lucy estava quase paralisada; eu tinha que puxá-la para não
dispersar o grupo.
Não saberia dizer quanto
tempo levamos para chegar ao fim das escadas, mas o caminho estreito
finalmente desembocou em uma caverna artificial. Pude ver outras
escadarias e outras meninas; todas elas corriam para trás do que parecia
ser uma porta de mais de meio metro de espessura. Nós quatro corremos
para o esconderijo.
— Obrigado por acompanharem a senhorita. Podem ir agora — ordenou um guarda para minhas criadas.
— Não! Elas estão comigo. Vão ficar — eu disse, com autoridade.
— Senhorita, elas têm seu próprio esconderijo — ele replicou.
— Ótimo. Se não entrarem,
eu não entro. Tenho certeza de que o príncipe Maxon gostará de saber
que minha ausência é culpa sua. Vamos voltar, meninas.
Puxei Mary e Lucy pelas mãos. Anne estava tão chocada que não disse nada.
— Espere! Espere! Muito bem, podem entrar. Mas se houver qualquer reclamação, a responsabilidade é sua.
— Sem problemas — eu disse.
Dei meia-volta com elas e entrei no abrigo de cabeça erguida.
Havia um ruído de
atividade lá dentro. Algumas garotas se abraçavam aos prantos, enquanto
outras rezavam. Vi o rei e a rainha sentados sozinhos, cercados por mais
guardas. Ao lado deles, Maxon segurava a mão de Elayna. Ela parecia um
pouco abalada, mas o toque dele claramente a acalmava. Observei o lugar
da família real no esconderijo... Tão perto da porta. Perguntei-me se a
escolha tinha a ver com a dos capitães de navio, que afundavam com seu
barco. Eles fariam tudo para manter o palácio de pé, mas, se ele
afundasse, eram os primeiros a morrer.
O grupinho real viu minha
entrada e notou que eu tinha companhia. Não desviei o olhar de suas
expressões confusas. Fiz uma breve reverência com a cabeça e continuei a
andar com ar altivo. Imaginava que, enquanto parecesse estar certa dos
meus atos, ninguém me questionaria.
Estava errada.
Dei mais três passos até
Silvia aparecer. Ela passava a impressão de estar incrivelmente calma.
Com certeza, aquela situação não era novidade para ela.
— Ótimo. Temos gente para
ajudar. Meninas, vão imediatamente buscar água no armazém dos fundos e
comecem a servir comida para a família real e as Selecionadas. Mexam-se —
ela ordenou.
— Não.
Voltei-me para Anne e dei minha primeira ordem de verdade.
— Anne, por favor, sirva o rei, a rainha e o príncipe. Depois venha ficar ao meu lado.
Então continuei, encarando Silvia:
— O resto pode se virar.
Elas escolheram abandonar suas criadas. Podem pegar sua maldita água
sozinhas. As minhas ficarão sentadas ao meu lado. Venham, moças.
Eu sabia que estávamos
bem perto da família real e que eles podiam me ouvir. Na minha tentativa
de mostrar autoridade, falei um pouco alto demais. Mas não me importava
se eles me achassem grossa. Lucy estava mais assustada que a maior
parte das pessoas naquele lugar. Tremia dos pés à cabeça, e não havia a
menor chance de eu deixá-la servir gente que não tinha metade de sua
bondade naquele estado.
Talvez por causa de todos os meus anos como irmã mais velha, eu queria apenas manter aquelas três a salvo.
Encontramos um espacinho
no fundo do abrigo. Quem quer que fosse o responsável pela manutenção do
esconderijo não estava preparado para a chegada das Selecionadas. Quase
não havia cadeiras suficientes. Mas eu vi os estoques de água e comida e
supus que poderíamos ficar ali por meses, se fosse necessário.
Tratava-se de um grupo
bem esquisito. Era óbvio que muitos funcionários tinham trabalhado a
noite toda e, por isso, ainda estavam de uniforme. O próprio Maxon
estava nessa situação. Mas quase todas as garotas estavam de camisola,
um traje que só servia para dormir nos quartos aquecidos do segundo
andar. Nem todas puderam pegar um roupão na pressa de fugir. E mesmo eu
sentia um pouco de frio com o meu.
Várias meninas se
juntaram na frente do abrigo. Era óbvio: seriam as primeiras a morrer se
alguém invadisse o lugar. Mas, se não houvesse invasão, quanto tempo
teriam passado bem diante de Maxon! Algumas garotas estavam mais
próximas de onde tínhamos parado, e a maioria delas padecia da mesma
condição de Lucy: tremiam, choravam e não se moviam de medo.
Enquanto Anne servia a
família real, eu mantinha Lucy sobre meu braço e Mary a acariciava. Não
havia nada de agradável a dizer do esconderijo ou da situação e, por
isso, permanecemos um tempo em silêncio, ouvindo as vozes dos outros
refugiados. Aquele ruído lembrou meu primeiro dia no palácio, quando nos
maquiaram. Fechei os olhos e imaginei aquelas cenas com os sons do
abrigo, com o intuito de ficar tão calma quanto aparentava estar.
— Você está bem?
Ergui os olhos e dei com
Aspen, imponente em seu uniforme. Seu tom de voz era muito formal, e ele
não parecia nem um pouco abalado com aquela situação.
— Sim, obrigada — respondi, respirando fundo.
Não dissemos nada por
alguns instantes, observando as pessoas se instalarem no abrigo. Mary
estava claramente exausta e dormia apoiada em Lucy. Lucy estava até mais
calma, no fim das contas. Tinha parado de chorar e permanecia sentada,
olhando para Aspen com um olhar de doce admiração.
— Foi bondade sua trazer as criadas. Nem todo mundo é tão gentil com pessoas consideradas inferiores — ele disse.
— As castas nunca me importaram — afirmei calmamente.
Aspen abriu o menor dos sorrisos.
Lucy tomou fôlego como se
fosse perguntar algo para Aspen, mas um grito retumbante ecoou pelo
esconderijo. Um guarda na outra ponta do lugar rugia ordens para que
todas nós nos calássemos.
Aspen saiu, o que foi bom. Temia que alguém pudesse ver alguma coisa.
— É o mesmo guarda de antes, não é? — Lucy perguntou.
— Sim.
— Eu o vi de vigia na sua porta. Ele é muito simpático — comentou.
Tinha certeza de que Aspen devia falar com minhas criadas com a mesma delicadeza que falava comigo. Eram todos Seis, afinal.
— E é muito bonito — acrescentou Lucy.
Achei graça e pensei em
dizer algo, mas aquele mesmo guarda nos pediu para fazer silêncio. Assim
que alguns restos de conversa sumiram, uma quietude assustadora recaiu
sobre o abrigo.
Então pudemos ouvir.
Pessoas lutavam sobre nossas cabeças. Fiquei atenta ao som de tiros ou
qualquer outra coisa que pudesse revelar a origem daquele grupo de
rebeldes. Sem perceber, estava agarrada às garotas próximas de mim, como
se juntas pudéssemos nos defender do que viesse a acontecer.
O som continuou por horas
a fio. O único movimento no abrigo eram as rondas de Maxon, que cumpria
seu dever e verificava a situação de cada uma das meninas. Quando ele
chegou no canto onde estávamos, apenas Lucy e eu permanecíamos
acordadas. Às vezes, trocávamos umas palavras rápidas aos sussurros,
quase lendo os lábios uma da outra.
Maxon se aproximou e não
notei nenhum vestígio de raiva por causa de nossa última discussão,
embora eu ainda quisesse esclarecer aquilo.
Em vez disso, vi um
sorriso agradecido em seu rosto. Ele estava simplesmente feliz por eu
estar bem. Uma onda de culpa percorreu meu corpo... No que eu havia me
metido?
— Você está bem? — ele perguntou.
Fiz que sim com a cabeça.
Ele se voltou para Lucy e se inclinou sobre mim para falar com ela.
Senti o cheiro dele. Maxon não cheirava a nada que viesse em frascos.
Não era como canela ou baunilha, nem mesmo – lembrei na hora – sabonete
caseiro. Tinha seu próprio cheiro, uma mistura de essências que seu
corpo exalava.
— E você? — ele perguntou a Lucy.
Ela também fez que sim com a cabeça.
— Surpresa de estar aqui em baixo?
Ele deu um sorriso para Lucy, deixando mais leve uma situação inimaginável.
— Não, Majestade. Não com ela — respondeu Lucy, voltando a cabeça para mim.
O príncipe virou-se para
me encarar, e seu rosto estava incrivelmente próximo do meu. Senti-me
desconfortável. Havia tanta gente deitada ao meu redor que eu não era
capaz de me mover. E podíamos ser vistos por muitos; até por Aspen. Mas o
momento passou rapidamente e ele voltou a olhar para Lucy.
— Sei o que você quer dizer.
Maxon abriu outro sorriso. Ele parecia prestes a dizer algo mais, mas mudou de ideia e começou a se levantar.
Agarrei seu braço com um só movimento e perguntei em voz baixa:
— Norte ou sul?
— Lembra-se do dia da foto? — ele sussurrou.
Em choque, respondi que
sim. Aqueles rebeldes que avançavam por noroeste, queimando plantações e
massacrando pessoas pelo caminho. “Veja se conseguimos interceptá-los”,
Maxon tinha dito. Aqueles rebeldes, aqueles assassinos, tinham vindo
lentamente até nós, e não pudemos pará-los. Eram matadores. Eram
sulistas.
— Não conte a ninguém.
Maxon nos deixou e passou para Fiona, que soluçava encolhida.
Tentei respirar devagar
enquanto imaginava meios de escapar caso eles chegassem até nós, mas era
tudo ilusão. Se os rebeldes conseguissem entrar, seria o fim. Não havia
nada a fazer senão esperar.
O tempo se arrastava. Não
fazia ideia de que horas eram, mas as pessoas que tinham apagado
começavam a acordar e aqueles que tinham se mantido ligados começavam a
desfalecer.
Os barulhos sobre nós não
pararam de uma vez, mas diminuíram com o passar das horas. Por fim,
tudo ficou em silêncio e assim permaneceu.
A porta se abriu e alguns
guardas saíram para investigar. Mais tempo se passou enquanto faziam
uma varredura no palácio. Então eles voltaram.
— Senhoras e senhores, os
rebeldes foram subjugados — um dos guardas anunciou. — Pedimos a todos
que retornem a seus quartos pela escada dos fundos. Há muita bagunça e
vários guardas feridos. É melhor evitar os salões e corredores até que
tudo esteja limpo. As Selecionadas devem ir para seus quartos e
permanecer lá até segunda ordem. Já falei com os cozinheiros e alguém
lhes servirá algo dentro de uma hora. Preciso que todos os membros da
equipe médica me acompanhem até a ala hospitalar.
Após essas palavras, as
pessoas começaram a se levantar e a agir como se nada tivesse
acontecido. Alguns aparentavam certo tédio. Com exceção de rostos como o
de Lucy, todos pareciam ter mantido a calma durante o ataque, como se
fosse esperado.
Meu quarto havia sido
revirado. Colchão fora da cama, vestidos jogados no chão, fotos da minha
família rasgadas. Procurei o jarro e o encontrei intacto, com sua
moedinha, escondido debaixo da cama. Tentei não chorar, mas meus olhos
continuavam a marejar. Não era medo, embora eu tivesse medo. Só não
queria que um inimigo tocasse nas minhas coisas, não queria que as
destruísse. Levamos um tempo até ajeitar tudo, por conta do cansaço
extremo. Mas conseguimos. Anne conseguiu até a encontrar fita adesiva
para eu colar minhas fotos. Mandei minhas criadas para a cama assim que
pus as mãos na fita. Anne reclamou, mas eu não estava disposta a ouvir.
Agora que tinha encontrado minha capacidade de dar ordens, não tinha
medo de usá-la.
Assim que fiquei sozinha, deixei o choro correr. O medo, embora quase extinto, ainda dominava parte de mim.
Peguei a calça que Maxon
me dera e a única camiseta trazida de casa e vesti. Senti-me um pouco
mais normal assim. Meu cabelo estava uma bagunça por causa de tudo o que
havia acontecido durante a noite e a maior parte da manhã. Dei um jeito
nele com um coque simples, mas algumas mechas caíam sobre meu rosto.
Dispus os pedaços das
fotos na cama, tentando descobrir a quais fotos pertenciam cada um. Era
como ter quatro quebra-cabeças diferentes na mesma caixa. Tinha
conseguido montar uma das fotos quando alguém bateu à porta.
“Maxon”, pensei. “Por favor, que seja Maxon.”
Abri a porta cheia de esperança.
— Olá, queridinha.
Era Silvia. Ela fez um
beicinho que, achei, devia ser sua maneira de oferecer conforto. Silvia
entrou rapidamente e só depois reparou em minhas roupas.
— Não me diga que também
quer ir embora? — ela lamentou. — De verdade, não foi nada — Silvia
parecia querer apagar todo aquele episódio com um gesto de suas mãos.
Eu não chamaria aquilo de nada. Será que ela não notou que eu tinha chorado?
— Não vou embora — disse, jogando uma mecha de cabelo para trás da orelha. — Alguém pediu para sair?
Ela deu um suspiro, decepcionada.
— Sim. Três até agora. E
Maxon, ótimo rapaz, disse-me para liberar quem quisesse voltar para
casa. Providências estão sendo tomadas neste exato momento. É tão
engraçado. Parece que ele sabia que algumas garotas iriam embora. Se
estivesse no lugar delas, pensaria duas vezes antes de sair por causa de
uma bobagem como essa.
Silvia começou a circular pelo quarto, observando a decoração. Bobagem? O que tinha de errado com essa mulher?
— Levaram alguma coisa? — ela perguntou com um tom informal.
— Não, senhora. Fizeram a maior bagunça, mas não dei por falta de nada.
— Muito bom.
Ela se aproximou de mim com um minúsculo telefone.
— É a linha mais segura
do palácio — explicou. — Você precisa telefonar para sua família e dizer
que está bem. Não demore muito. Ainda tenho outras garotas para ver.
Fiquei maravilhada com
aquele objeto diminuto. Nunca havia posto as mãos em um telefone
portátil. Já os tinha visto com Dois e Três, mas nunca imaginei que um
dia usaria um. Minhas mãos tremeram de emoção. Eu estava prestes a ouvir
a voz deles!
Disquei os números,
ansiosa. Depois de tudo o que tinha acontecido, aquela oportunidade me
fez sorrir. Minha mãe atendeu depois de dois toques.
— Alô?
— Mãe?
— America! É você? Você
está bem? Estávamos morrendo de preocupação. Um guarda telefonou para
avisar que não conseguiríamos entrar em contato com você por alguns
dias, e eu sabia que os malditos rebeldes tinham conseguido entrar aí.
Ficamos com tanto medo.
Minha mãe começou a chorar.
— Ah, mãe, não chore. Estou segura.
Olhei para Silvia. Ela parecia aborrecida.
— Um momento.
Houve alguma agitação na minha casa.
— America?
A voz de May estava pesada por causa das lágrimas. Ela devia ter passado um dia péssimo.
— May! Ah, May! Sinto tanto a sua falta! — eu disse, sentindo minhas próprias lágrimas voltarem.
— Pensei que estivesse morta! America, eu te amo. Promete que não vai morrer? — ela choramingou.
— Prometo — tive que achar graça nesse juramento.
— Você vai voltar para casa? Você pode? Não quero que fique aí.
May estava praticamente implorando.
— Voltar para casa? — perguntei.
Fui tomada pelas emoções.
Sentia saudades da minha família, e estava cansada de me esconder dos
rebeldes. Estava cada vez mais confusa quanto a meus sentimentos por
Aspen e Maxon, e não sabia como lidar com aquilo. O jeito mais fácil
seria sair. Mas não.
— Não, May. Não posso ir para casa. Tenho que ficar aqui.
— Por quê? — grunhiu May.
— Porque sim — respondi simplesmente.
— Porque sim o quê?
— Só... porque sim.
May ficou em silêncio por um segundo, pensando.
— Você está apaixonada por Maxon?
Era a May que só pensava em meninos de volta. Ela ficaria bem.
— Humm, não sei, mas...
— America! Você está apaixonada por Maxon! Minha nossa!
Ouvi meu pai gritar “O quê?” ao fundo, enquanto minha mãe repetia “Sim, sim, sim!”.
— May, eu não disse que...
— Eu sabia!
May ria sem parar. E, assim, seu medo de me perder desapareceu.
— May, preciso desligar.
As outras garotas vão usar o telefone. Mas eu só queria que você
soubesse que estou bem. Escrevo logo, prometo.
— Está bem, está bem. Fale sobre Maxon! E mande mais doces! Eu te amo! — ela gritou.
— Eu também te amo. Tchau.
Desliguei antes de ela pedir mais coisas. Assim que sua voz sumiu, porém, senti sua falta mais do que antes.
Silvia foi ligeira. Tomou o telefone da minha mão em segundos e caminhou para a porta.
— Boa menina — ela disse, e desapareceu pelo corredor.
Eu com certeza não me sentia bem. Mas sabia que logo que ajeitasse as coisas com Aspen e Maxon me sentiria.

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