a elite
Capítulo 8
A FESTA DE HALLOWEEN FOI TÃO INCRÍVEL quanto
Maxon tinha prometido. Quando adentrei o Grande Salão, com May ao meu
lado, fiquei pasma com toda aquela beleza diante de meus olhos. Tudo era
dourado. Enfeites de parede, joias brilhantes sobre os candelabros,
copos, pratos, e até a comida: tudo tinha toques de ouro. Nada era menos
do que magnífico.
Um aparelho de som tocava música
pop, mas, no canto do salão, uma pequena banda aguardava o momento de
tocar as danças tradicionais que tínhamos aprendido. Câmeras – de foto e
vídeo – espalhavam-se pelo ambiente. Sem dúvida, a festa seria o
destaque da programação de Illéa no dia seguinte. Impossível existir uma
comemoração como aquela. Imaginei por uns instantes como seria se eu
estivesse aqui até o Natal.
As fantasias estavam maravilhosas.
Marlee estava de anjo, dançando com o soldado Woodwork. Sua fantasia
tinha até asas – pareciam feitas de papel brilhante – que pendiam das
suas costas. Celeste usava um vestido curto feito de penas; a pluma
comprida na parte de trás de sua cabeça indicava que a fantasia era de
pavão.
Kriss estava ao lado de Natalie, e
ambas pareciam ter combinado: o corpete do vestido de Natalie estava
coberto de flores abertas, ao passo que a saia de pregas era feita de
tule azul. O vestido de Kriss era dourado como o salão e recoberto com
camadas e camadas de folhas. Chutei que estavam fantasiadas de primavera
e outono. Uma ideia fofa.
A herança asiática de Elise foi
explorada ao máximo. Seu vestido de seda era um exagero perto das roupas
discretas que ela costumava usar. As mangas longas e drapejadas eram
dramáticas ao extremo, e sua capacidade de andar com todos aqueles
enfeites na cabeça me impressionou. Elise não era de chamar a atenção,
mas naquela noite estava linda, com um ar de rainha.
Espalhados pelo salão, estavam
parentes e amigos, também fantasiados, e mesmo os guardas estavam
bem-vestidos. Vi um jogador de beisebol, um vaqueiro, alguém de terno
com um crachá em que se lia GAVRIL FADAYE. Um dos guardas ousou ao ponto
de botar um vestido de mulher; estava rodeado por um punhado de meninas
que morriam de rir. Muitos dos outros guardas, no entanto, estavam com a
versão de gala de seus uniformes, que consistia simplesmente em calças
vincadas brancas e casaca azul. Usavam luvas, mas não chapéu, o que
ajudava a distingui-los dos guardas em serviço que rondavam o salão.
— Então, o que você está achando? —
perguntei a May, mas quando me virei ela já tinha desaparecido na
multidão para explorar o lugar.
Comecei a rir sozinha enquanto
tentava identificar seu vestidinho bufante no salão. Quando ela me disse
que queria ir à festa fantasiada de noiva – “tipo as da TV” – achei que
era piada. Mas ela ficou simplesmente ótima de véu.
— Olá, senhorita America — alguém sussurrou em minha orelha.
Voltei à realidade e ao me virar para responder deparei com Aspen ao meu lado com seu uniforme de gala.
— Você me assustou! — reclamei, com a mão no coração como se isso fosse diminuir seu ritmo.
Aspen apenas riu.
— Gostei da fantasia — ele disse, com um tom simpático.
— Obrigada. Também gostei.
Anne tinha me transformado em uma
borboleta. Meu vestido, bem ajustado, era de um material esvoaçante, com
a barra preta ondulando à minha volta. Uma máscara minúscula imitando
asas de borboleta me cobria o rosto e criava um ar misterioso.
— Por que você não se fantasiou? — perguntei. — Não conseguiu pensar em algo?
Aspen sacudiu os ombros.
— Prefiro o uniforme.
— Hmm.
Me parecia triste desperdiçar esse
ótimo pretexto para uma extravagância. Aliás, Aspen tinha menos
oportunidades nesse sentido do que eu. Por que não aproveitar?
— Só vim para dar um “oi”, ver como você estava.
— Legal — repliquei. Me sentia tão estranha.
— Ah — ele disse, descontente. — Tudo bem, então.
Talvez ele esperasse uma resposta
melhor depois do que dissera no outro dia, mas eu ainda não estava
preparada para dizer nada. Aspen se despediu com um aceno e saiu para
falar com outro guarda, que o abraçou como um irmão. Comecei a pensar se
o fato de ele ser um guarda lhe dava uma sensação de pertencer a uma
família, como a que eu tinha adquirido na Seleção.
Logo em seguida, Marlee e Elise me
encontraram e me arrastaram para a pista de dança. Enquanto eu balançava
o corpo – com cuidado para não acertar ninguém – avistei Aspen no canto
da pista, conversando com minha mãe e May. Minha mãe passou a mão na
manga da camisa dele, para ajeitá-la, talvez, e May estava radiante.
Podia imaginar as duas dizendo a ele como estava bonito de uniforme,
como sua mãe ficaria orgulhosa se o visse. Ele devolveu o sorriso, e
dava para notar que também estava muito contente com os elogios. Aspen e
eu éramos duas raridades: uma Cinco e um Seis arrancados de suas vidas
monótonas e colocados no palácio. A Seleção transformava tanto a minha
vida que eu me esquecia de apreciar esses momentos.
Dancei num círculo com algumas das outras meninas e com outros guardas, até que a música parou e o DJ começou a falar:
— Senhoritas da Seleção, cavalheiros
da guarda, amigos e parentes da família real: por favor, deem as
boas-vindas ao rei Clarkson, à rainha Amberly e ao príncipe Maxon
Schreave!
A banda explodiu em notas musicais, e
todos reverenciamos e inclinamos a cabeça para a passagem da família
real. Aparentemente, o rei estava vestido de rei, só que de outro país.
Não captei a diferença. O vestido da rainha era de um azul tão escuro
que parecia preto, e ainda estava enfeitado com brilhantes de alto a
baixo. Parecia o céu de noite. E Maxon, beirando o ridículo, estava de
pirata. Sua calça estava cheia de rasgões, e ele usava uma camisa
folgada com um colete por cima e uma bandana na cabeça. Para
impressionar mais ainda, ele tinha ficado um ou dois dias sem se
barbear, de modo que uma sombra de pelos castanhos em forma de sorriso
cobria a metade de baixo de seu rosto.
O DJ nos pediu para abrir espaço na
pista para o rei e a rainha terem sua primeira dança. Maxon se afastou e
permaneceu ao lado de Kriss e Natalie, sussurrando coisas para ambas,
que riam. Por fim, notei que ele estava como que inspecionando o salão.
Não sei se procurava por mim, mas não queria ser pega olhando para ele.
Ajeitei a saia do vestido e voltei os olhos para os pais de Maxon. O rei
e a rainha pareciam bem felizes.
Pensei sobre a Seleção, sobre a
loucura de tudo aquilo, mas não podia contestar seus resultados: o rei
Clarkson e a rainha Amberly pareciam feitos um para o outro. Ele parecia
enérgico, e ela compensava isso com sua natureza calma. Ela era uma
ouvinte silenciosa, ao passo que ele sempre parecia ter algo a dizer.
Embora tudo aquilo merecesse ser considerado arcaico e errado,
funcionava.
Será que, durante a Seleção deles,
tinha existido algum momento em que eles se distanciaram, como eu sentia
Maxon se distanciar de mim? Por que ele não tinha feito sequer uma
tentativa de me ver em meio aos encontros com todas as outras? Talvez
seja esse o motivo de ele ter falado com meu pai: explicar por que ele
precisava me mandar embora. Maxon era uma pessoa educada; certamente
faria uma coisa assim.
Corri os olhos pela multidão, à
procura de Aspen. No meio desse gesto, vi que meu pai tinha acabado de
chegar; estava de braços dados com a minha mãe, no outro lado do salão.
May estava ao pé de Marlee, que a abraçava por trás, como uma irmã; os
vestidos brancos de ambas brilhavam ainda mais com a luz. Não me
surpreendia o fato de as duas se darem tão bem em menos de um dia.
Respirei fundo. Onde estaria Aspen?
Olhei para trás – era minha última
tentativa – e lá estava ele, bem atrás de mim, sempre à minha espera.
Quando nossos olhos se encontraram, ele piscou para mim, e esse gesto
levantou meu astral.
Assim que o rei e a rainha
terminaram, todos fomos à pista de dança. Os guardas passavam de lá para
cá e logo arrumavam um par. Maxon permanecia em pé, no canto, com Kriss
e Natalie. Fiquei na esperança de que ele me tirasse para dançar. Eu é
que não queria chamá-lo. Controlei os nervos, ajeitei o vestido e andei
em direção a Maxon. Decidi ao menos lhe dar a chance do convite. Abri
caminho pela pista de dança com a intenção de entrar na conversa dos
três. Já estava perto o bastante para dizer algo quando Maxon olhou para
Natalie.
— Quer dançar? — ele perguntou.
Ela riu e inclinou a cabeça para o
lado como se sua resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo. Já eu,
passei reto por eles, com os olhos cravados na mesa de chocolates, como
se ela fosse meu destino desde o começo. Fiquei de costas para todos
enquanto comia aqueles doces maravilhosos, com a esperança de que
ninguém reparasse em minhas bochechas vermelhas.
Depois de umas seis músicas, o soldado Woodwork surgiu. Como Aspen, ele escolhera usar seu uniforme.
— Senhorita America — disse ele, inclinando a cabeça — posso ter a honra desta dança?
Sua voz era alegre e terna. Me senti contaminada por seu entusiasmo e não pensei duas vezes antes de pegar em sua mão.
— Com certeza, senhor — respondi. — Devo preveni-lo, porém, de que não sou muito boa.
— Não tem problema. Iremos devagar.
Seu sorriso era tão convidativo que
eu nem me preocupei com a minha péssima aptidão para dança. Me deixei
levar alegremente para a pista.
A música era animada, assim como a personalidade dele. Ele falou o tempo todo e foi difícil acompanhar seu ritmo.
— Você parece completamente recuperada da nossa trombada do outro dia — brincou Woodwork.
— Foi uma pena você não ter me machucado — repliquei. — Se estivesse de muletas, pelo menos não precisaria dançar.
Ele riu.
— Fico feliz em ver que de fato você
é engraçada, como todos dizem. Falam também que você é a favorita do
príncipe — disse, como se a opinião do príncipe fosse de conhecimento
comum.
— Não estou sabendo disso.
Parte de mim ficava com muito ódio quando as pessoas falavam isso. Outra parte ansiava para que ainda fosse verdade.
Olhei por cima do ombro do soldado Woodwork e vi Aspen e Celeste dançando. Senti um nó no estômago.
— Parece que você se dá bem com
quase todo mundo. Alguém me disse até que durante o último ataque você
levou suas criadas consigo para o abrigo da família real. É verdade?
Ele parecia maravilhado. Para mim,
tinha sido completamente normal naquele dia proteger as garotas que eu
adorava, mas todo mundo considerava meu ato como ousado ou estranho.
— Eu não podia deixá-las para trás — expliquei.
Ele balançou a cabeça, espantado.
— Você é uma verdadeira dama.
— Obrigada — respondi, corando.
Fiquei esbaforida depois da música e
fui sentar em uma das muitas mesas espalhadas pelo salão. Me servi do
ponche de laranja e comecei a me abanar com um guardanapo enquanto
observava as pessoas dançarem na pista. Vi Maxon com Elise. Pareciam
felizes em meio aos rodopios. Ele já tinha dançado duas vezes com Elise e
nada de vir atrás de mim.
Levei tempo para descobrir onde
Aspen estava no salão; havia vários homens de uniforme. Por fim, o
encontrei em um canto, conversando com Celeste. Ela piscava para ele com
um sorriso charmoso nos lábios.
Quem ela pensava que era? Me
levantei para mandá-la parar, mas tomei consciência do que esse gesto
acarretaria para Aspen e para mim, antes de dar o primeiro passo. Me
sentei novamente e voltei a bebericar meu ponche. Quando a música
acabou, andei rapidamente na direção de Aspen. Queria ficar próxima o
bastante para que ele pudesse me tirar para dançar.
Foi o que ele fez. E foi bom, porque acho que eu não teria conseguido segurar meu gênio.
— Mas que diabos foi aquilo? — perguntei em voz baixa, mas claramente indignada.
— Aquilo o quê?
— Celeste esfregando as mãos pelo seu corpo!
— Alguém está com ciúmes — cantou ele em meu ouvido.
— Ah, sem essa! Ela não pode agir assim. É contra as regras!
Olhei ao redor para me certificar de
que ninguém, principalmente meus pais, notaria o tom íntimo da nossa
conversa. Vi minha mãe sentada, conversando com a mãe de Natalie. Meu
pai tinha sumido.
— Isso vindo de você? — disse Aspen
em tom de gozação, jogando a cabeça para trás. — Se não estamos juntos,
você não pode me proibir de falar com ninguém.
Fiz uma careta de raiva.
— Você sabe que não é assim.
— Como é, então? — ele sussurrou. —
Quando penso em você, nunca sei se devo insistir ou deixar pra lá —
depois balançou a cabeça. — Não quero desistir, mas se posso ter
esperanças, me diga.
Dava para notar o esforço que fazia
para manter o rosto tão calmo, para esconder a tristeza na voz. Aquilo
também me machucava. Pensar em pôr fim em tudo era como uma facada no
peito.
Respirei fundo e confessei.
— Ele tem me evitado. Diz oi e tal,
mas tem dado muita atenção às outras meninas ultimamente. Acho que
cheguei a pensar que ele gostava de mim de verdade.
Aspen parou de dançar por uns instantes, chocado com minhas palavras. Se recuperou logo e passou a contemplar meu rosto.
— Não tinha percebido que era esse o
problema — disse, calmamente. — Você sabe que quero ficar com você, só
que não quero vê-la magoada.
— Obrigada — agradeci, encolhendo os ombros. — Me sinto a mais idiota.
Aspen me puxou para si, mantendo ainda uma distância respeitosa ente nós, embora eu soubesse não ser esse o seu desejo.
— Acredite em mim, Meri: qualquer homem que deixe passar a chance de ficar com você é o idiota de verdade.
— Você tentou deixar passar essa chance — lembrei a ele.
— É por isso que sei — afirmou, com um sorriso.
Fiquei feliz de termos podido fazer piada sobre o assunto.
Olhei por cima do ombro de Aspen e vi Maxon dançando com Kriss. De novo. Por acaso, ele não me chamaria nem para uma dança?
Aspen falou no meu ouvido.
— Você sabe o que essa festa me lembra?
— O quê?
— O aniversário de dezesseis anos de Fern Tally.
Olhei para ele como se fosse louco.
Me lembrava da festa de dezesseis anos de Fern. Fern era uma Seis, e às
vezes ajudava minha família quando a mãe de Aspen estava ocupada demais
para nos atender. Seu aniversário de dezesseis anos foi uns sete meses
depois de Aspen e eu termos começado a namorar. Nós dois fomos
convidados, mas não foi bem uma festa. Um bolo e água, o rádio ligado
porque ela não tinha discos, sob a luz fraca do porão inacabado. O
diferencial foi essa ter sido a primeira festa em que estive, a não ser
pelas festas de família: a garotada do bairro sozinha naquele lugar. E
como foi empolgante. Mas não dava para compará-la ao esplendor do que
acontecia ao nosso redor no grande salão.
— Como esta festa pode ser parecida com aquela? — perguntei, cética.
Aspen engoliu em seco e falou:
— Nós dançamos. Lembra? Fiquei tão
orgulhoso de ter você em meus braços na frente de outras pessoas. Mesmo
parecendo que você estava tendo uma convulsão — ele concluiu, piscando
para mim.
Aquelas palavras agitaram meu coração. Eu me lembrava daquele dia. Vivi aquela festa na minha cabeça por semanas.
E, de repente, milhares de segredos
que Aspen e eu tínhamos construído e guardado entre nós inundaram minha
mente: os nomes escolhidos para nossos filhos imaginários; nossa casa na
árvore; o lugar atrás do pescoço onde ele sentia cócegas; os bilhetes
escritos e escondidos; minhas tentativas fracassadas de fazer sabão
caseiro; as partidas de jogo da velha que jogávamos num tabuleiro
invisível em sua barriga e usando o dedo para marcar as jogadas... As
partidas em que esquecíamos nossas jogadas invisíveis... Os jogos que
ele sempre me deixava ganhar.
— Me diga que vai esperar por mim. Se você esperar por mim, Meri, posso aguentar qualquer coisa — sussurrou ele.
A música seguinte foi uma canção
tradicional, e um soldado que estava próximo me chamou para dançar. Eu
estava arrasada. Deixei tanto Aspen quanto eu própria sem respostas.
A noite continuou, e mais de uma vez
me peguei caçando Aspen com o olhar. Embora eu tentasse parecer
natural, apostaria que qualquer pessoa atenta teria notado, em especial
meu pai, se estivesse no salão. Mas ele parecia mais interessado em
passear pelo palácio em vez de dançar.
Tentei me distrair com a festa e
provavelmente dancei com todos os garotos do salão, exceto Maxon. Me
sentei para descansar meus pés exaustos, e foi nesse momento que ouvi
uma voz ao meu lado.
— Senhorita?
Me virei, e Maxon continuou:
— Posso ter a honra desta dança?
O sentimento, aquela coisa
impossível de definir, percorreu meu corpo. Por mais rejeitada que me
sentisse, por mais vergonha que tivesse passado, quando ele me ofereceu
aqueles instantes com ele, tive de aceitá-los.
— Claro.
Ele tomou minha mão e me conduziu à
pista. A banda começou a tocar uma música lenta. Senti uma pontada de
felicidade. Ele não parecia irritado ou incomodado. Pelo contrário,
Maxon me puxou para tão perto de si que pude sentir seu perfume e sua
barba rala contra minha bochecha.
— Fiquei imaginando se conseguiria ao menos uma dança com você — comentei, tentando soar brincalhona.
Maxon deu um jeito de me puxar ainda mais para si.
— Eu estava guardando este momento.
Passei um tempo com todas as outras garotas para acabar logo com minhas
obrigações. Agora, posso desfrutar do resto da noite com você.
Corei, como sempre acontecia quando
ele me dizia coisas assim. Às vezes, suas palavras eram como poemas de
um verso só. Não me lembro de tê-lo ouvido falar assim comigo ao longo
da semana anterior. Meu coração acelerou.
— Você está perfeita, America. Linda demais para estar nos braços de um pirata desleixado.
Achei graça e comentei:
— Mas que fantasia você usaria para combinarmos? De árvore?
— No mínimo, de algum tipo de arbusto.
— Pagaria para ver você vestido de arbusto! — falei, entre risos.
— Ano que vem — ele prometeu.
Olhei para ele. Ano que vem?
— Você gostaria? Gostaria de outra festa de Halloween no próximo mês de outubro? — perguntou Maxon.
— E eu estarei aqui no próximo mês de outubro?
Maxon parou de dançar.
— Por que não estaria?
Encolhi os ombros.
— Você me evitou a semana toda. Saiu
com outras meninas. E... vi você e meu pai conversando. Pensei que
talvez você estivesse lhe contando que teria de dar um pé na filha dele.
Engoli em seco. Não ia chorar ali.
— America.
— Entendi. Alguém tem que sair. Eu sou uma Cinco, Marlee é a favorita do povo...
— America, chega — ele protestou com
a voz serena. — Eu sou um idiota. Não fazia ideia de que você veria as
coisas assim. Pensei que você estava segura na sua condição.
Havia algo aí que ainda não fazia sentido para mim. Maxon respirou fundo.
— Você quer saber a verdade? Eu
estava tentando dar uma chance para as meninas competirem. Desde o
começo, só olhava para você, só queria você.
Ao ouvir essas palavras, corei mais uma vez. Maxon prosseguiu:
— Quando você me revelou seus
sentimentos, fiquei tão aliviado que parte de mim não acreditou. Ainda
me esforço para aceitar que aquilo foi real. Você ficaria surpresa se
soubesse como é raro eu conseguir algo que eu queira de verdade.
Os olhos de Maxon escondiam alguma
coisa, uma tristeza que ele não estava preparado para expressar. Ele
afastou aqueles pensamentos e continuou sua explicação:
— Tinha medo de estar errado, de
você mudar de ideia a qualquer minuto. Procurei uma alternativa
adequada, mas a verdade é... — Maxon me olhou firmemente nos olhos — que
só existe você. Talvez eu não esteja procurando de verdade, talvez elas
não sirvam para mim. Não importa. Só sei que quero você. E isso me
assusta. Esperava que você fosse voltar atrás, implorar para sair.
Levei uns momentos para recuperar o
fôlego. De repente, todo aquele tempo afastada dele me pareceu
diferente. Compreendia essa sensação: de que era bom demais para ser
verdade, bom demais para confiar. Me sentia assim todos os dias em que
estava com ele.
— Maxon, isso não vai acontecer —
sussurrei, com a boca próxima ao pescoço dele. — No máximo, você vai
perceber que não sou boa o suficiente.
Os lábios dele chegaram ao meu ouvido.
— Você é perfeita.
Puxei-o contra meu peito, e ele fez o
mesmo. Ficamos mais próximos do que nunca. No fundo da minha mente, uma
voz me dizia que estávamos em um salão lotado, que ali, em algum lugar,
estava minha mãe, provavelmente desmaiando com a cena. Mas nada
importava. Naquele momento, parecíamos ser as únicas duas pessoas no
mundo.
Afastei um pouco o rosto para ver
Maxon, e percebi que para isso teria que limpar as lágrimas dos olhos.
Só que eu gostava daquelas lágrimas.
Maxon explicou tudo.
— Quero que as coisas aconteçam no
tempo certo. Logo que eu anunciar a dispensada de amanhã, para a alegria
do povo e de meu pai. Não quero apressá-la, de forma alguma. Quero que
você veja a suíte da princesa, que fica bem ao lado da minha — ele
disse, em voz baixa.
Fiquei um pouco zonza só de pensar que ficaria tão perto dele o tempo todo.
— Você deveria começar escolhendo o
que vai querer dentro dela. Quero que você se sinta completamente à
vontade. Você também terá que escolher mais algumas criadas, e decidir
se vai querer sua família no palácio ou em uma casa aqui perto. Vou
ajudá-la em tudo.
Uma batida fraca do meu coração me sussurrava: “E Aspen?”. Só que eu estava tão entregue a Maxon que mal a escutei.
— Em breve, quando eu encerrar a
Seleção, quando pedir sua mão em casamento, quero que isso seja tão
fácil quanto respirar para você. Prometo fazer tudo que estiver ao meu
alcance para que as coisas sejam assim. O que você precisar, o que você
quiser: basta dizer, e farei tudo que puder para ajudá-la.
Fiquei chocada. Maxon me entendia
tão bem. Sabia como eu estava nervosa com aquele compromisso, como me
amedrontava a perspectiva de ser princesa. Ele estava disposto a me dar
até o último segundo que podia e, até lá, me encher de todos os
presentes possíveis. Tive outra vez a sensação de que era impossível
crer que aquilo estava acontecendo.
— Isso não é justo, Maxon — eu murmurei. — O que eu seria capaz de dar em troca?
Ele abriu um sorriso.
— Tudo o que quero é que você prometa ficar comigo, ser minha. Às vezes, você não parece real. Me prometa que vai ficar.
— Claro que prometo.
Depois disso, apoiei a cabeça sobre
seu ombro e dançamos agarrados uma música atrás da outra. Houve um
momento em que meu olhar e o de May se cruzaram; ela parecia prestes a
morrer de felicidade por nos ver juntos. Minha mãe e meu pai também nos
viram, sendo que meu pai sacudia a cabeça como se dissesse “e você
achando que ia ser mandada embora”.
E então algo me veio à cabeça.
— Maxon? — chamei, levantando os olhos para ele.
— Sim, querida?
Ser chamada daquele jeito me fazia sorrir.
— Por que você estava conversando com meu pai?
Maxon achou graça na pergunta.
— Ele sabe das minhas intenções. E
saiba que ele as aprova de coração, desde que você seja feliz. Foi essa a
única condição dele. Assegurei a ele que faria tudo o que estivesse ao
meu alcance para vê-la feliz, e disse que você já parecia feliz de estar
aqui.
— E estou.
Senti o peito de Maxon inflar.
— Então ele e eu já temos o que precisamos.
A mão de Maxon deslizou para o fim
das minhas costas, me incentivando a não me afastar dele. Seu toque me
revelava tantas coisas. Eu sabia que aquilo era real, que estava
acontecendo, que eu podia acreditar. Eu sabia que abriria mão das
amizades feitas no palácio se necessário, embora tivesse certeza de que
Marlee não se importaria nem um pouco com a derrota. E sabia que teria
que extinguir a chama que mantinha acesa para Aspen em meu coração.
Seria um processo lento, e eu teria de contar para Maxon. Ainda assim,
eu a apagaria.
Porque então eu era dele. Eu sabia. Nunca estive tão certa.
Pela primeira vez, eu via. Via o
corredor, os convidados se levantando, e Maxon de pé, na outra ponta.
Graças àquele toque, tudo fazia sentido.
A festa avançou pela madrugada, até
Maxon arrastar nós seis para a sacada na frente do palácio para que
pudéssemos ter a melhor visão dos fogos de artifício. Celeste tropeçava
pelos degraus de mármore, enquanto Natalie tinha arranjado um chapéu de
algum guarda infeliz. O champanhe rolava solto, e Maxon comemorava
antecipadamente nosso noivado com uma garrafa apenas para ele.
Assim que os fogos iluminaram o céu, Maxon ergueu sua garrafa.
— Um brinde! — exclamou.
Nós erguemos as taças e esperamos
ansiosas. Notei que a taça de Elise estava manchada com o batom preto
que ela tinha usado. Até mesmo Marlee levantava sua taça, discretamente,
bebericando em vez de dar goles grandes.
— A todas vocês, belas senhoritas. E à minha futura esposa! — Maxon puxou.
As garotas vibraram; cada uma pensou
que o brinde era para si. Só que eu sabia a verdade. Quando todas
baixaram as taças, vi Maxon – meu quase noivo – me dando uma piscadela
antes de beber mais um gole de champanhe. O brilho e a emoção ao longo
da noite inteira eram estonteantes. Era como se uma fogueira de
felicidade me engolisse por completo.
Não podia imaginar nada forte o bastante para roubar aquela felicidade.

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