a elite
Capítulo 29
CRUZEI OS BRAÇOS.
— Ouvi a versão de Kriss para o que
aconteceu e não acho que ela exagerou. Quanto a Celeste, prefiro não
falar nunca mais sobre ela.
Ele riu.
— Tão teimosa. Vou sentir falta disso.
Fiquei quieta por um minuto.
— Então é isso? Estou fora?
Maxon pensou um pouco.
— Acho que não sou capaz de evitar a essa altura. Não é o que você queria?
Eu neguei com a cabeça.
— Eu estava louca — falei, quase sem voz. — Tão louca.
Desviei o olhar. Não queria chorar
naquela hora. Aparentemente, Maxon tinha decidido que eu precisava ouvir
o que ele tinha para falar, querendo ou não. Ele finalmente tinha me
encurralado, e eu ouviria tudo o que ele queria me dizer.
— Pensei que você fosse minha — ele
começou. Olhei-o com o canto dos olhos e o vi com o rosto voltado para o
teto. — Se eu pudesse, teria pedido sua mão em casamento na festa de
Halloween. Tenho que fazer um evento oficial, com meus pais, convidados e
câmeras. Mas tenho uma autorização especial para pedir em casamento de
forma privada quando estivermos prontos e organizar uma recepção depois.
Nunca falei disso?
Maxon olhou para mim, e eu sacudi a cabeça devagar. Ele abriu um sorriso amargo e continuou a recordar:
— Eu já tinha preparado o discurso.
Todas as promessas que queria fazer. Provavelmente eu teria esquecido
tudo na hora e feito papel de idiota. Apesar de... eu lembrar delas
agora. Vou poupá-la disso — acrescentou com um suspiro.
Ele ficou calado por um minuto.
— Quando você me afastou, entrei em
pânico. Eu tinha certeza de ter chegado ao fim deste concurso insano, e
me encontrei novamente como no primeiro dia da Seleção, só que agora com
bem menos opções. E eu havia passado a semana anterior com as outras
garotas com o intuito de encontrar alguém que ofuscasse você, que talvez
eu desejasse mais. Fracassei. Me sentia sem esperança.
“E então Kriss apareceu. Tão
humilde, com o único desejo de me ver feliz, e me perguntei por que não
havia reparado nesse seu lado. Eu sabia que ela era simpática, e ela é
muito atraente. Mas vi algo a mais nela.
“Acho que eu simplesmente não estava procurando de verdade. Por que o faria, se tinha você?
Abracei meu corpo na esperança de me esconder da dor. Eu já não existia, eu havia estragado tudo.
— Você a ama? — perguntei, humilhada.
Não queria ver seu rosto, mas a longa pausa deu a entender que havia algo profundo entre ambos.
— É diferente do que era com você.
Mais sereno, mais amistoso. Mas é firme. Posso me apoiar em Kriss, e não
tenho dúvidas de que ela é dedicada a mim. Como você pode ver, há
poucas certezas em meu mundo. E por isso é reconfortante tê-la ao meu
lado.
Fiz que sim com a cabeça, ainda
evitando olhá-lo nos olhos. Só conseguia pensar nele falando de nós dois
no passado e nos seus elogios infindáveis a Kriss. Queria ter algo de
ruim para falar sobre ela, algo que fosse derrubá-la de um só golpe, mas
não: Kriss era uma dama. Fez tudo direito desde o começo. De fato, eu
fiquei surpresa por ele ter preferido a mim em vez dela. Kriss era
perfeita para ele.
— Então por que Celeste, se Kriss é tão maravilhosa... — perguntei, finalmente com meus olhos nos deles.
Maxon inclinou a cabeça,
envergonhado com o assunto. Antes de mais nada, a ideia de falar disso
tinha partido dele, de modo que ele devia ter alguma resposta em mente.
Ele se levantou e arriscou outro alongamento antes de começar a caminhar
com passos curtos pelo abrigo.
— Como você sabe, minha vida é cheia
de desgastes que eu prefiro não revelar. Vivo em um estado de constante
tensão. Sempre observado, julgado. Meus pais, nossos conselheiros...
sempre há câmeras em minha vida, e agora vocês estão aqui — ele disse,
com um gesto em minha direção. — Tenho certeza de que você já se sentiu
aprisionada por causa da sua casta pelo menos uma vez, mas imagine como
me sinto. Há coisas que vi, America, que sei; e acho que nunca serei
capaz de mudá-las. Você tem consciência, imagino, que teoricamente meu
pai deve se aposentar quando eu chegar aos vinte anos — prosseguiu
Maxon. — Mas você acha que ele vai deixar de mexer os pauzinhos? Isso
não vai acontecer enquanto ele viver. E eu sei que ele é terrível, mas
eu não quero que ele morra... Ele é meu pai.
Fiz um sinal demonstrando que tinha entendido.
— A propósito, ele também influenciou a Seleção, desde o primeiro dia. Se você olhar as remanescentes, fica tudo muito claro.
Maxon começou a contar as meninas nos dedos.
— Natalie é extremamente dócil, o
que faz dela a favorita de meu pai, pois segundo ele sou muito
voluntarioso. O fato de ele gostar tanto dela faz com que eu tenha que
lutar contra o impulso de odiá-la. Elise possui aliados na Nova Ásia,
mas não sei se serviriam para alguma coisa. Essa guerra... — Maxon
pensou em algo e sacudiu a cabeça. Havia algum detalhe sobre a guerra
que ele não queria revelar. — E ela é tão... nem sei a palavra para
isso. Sabia desde o começo que não queria uma garota que concordasse com
tudo o que eu dissesse ou apenas obedecesse. Eu tentava contradizê-la, e
então ela cedia. O tempo todo! É irritante. É como se ela não tivesse
personalidade.
Ele estava quase ofegante. Eu não
tinha percebido o quanto ela o incomodava. Ele sempre tinha tanta
paciência conosco. Por fim, ele olhou para mim.
— Você foi escolha minha. Minha
única escolha. Meu pai não ficou entusiasmado, mas até então você ainda
não tinha feito nada que o deixasse irritado. Se você ficasse quieta,
ele não se importaria que eu a mantivesse. Aliás, ele não veria
problemas se eu escolhesse você, desde que você fosse bem-comportada.
Ele usou as suas ações recentes para apontar minhas falhas de julgamento
e insistir que terá a palavra final a partir de agora.
Maxon balançou a cabeça.
— Mas isso é outra história. As
outras, Marlee, Kriss e Celeste, foram escolhidas por conselheiros.
Marlee era uma das favoritas, como Kriss. — Ele soltou um suspiro. —
Kriss seria uma boa escolha. Gostaria que ela me deixasse ficar mais
próximo, pelo menos para descobrir se temos... química. Queria pelo
menos ter uma ideia.
“E Celeste. Ela é muito influente,
uma celebridade por si só. Fica bem na TV. Parece lógico que alguém
quase do meu nível seja minha escolha final. Gosto dela ao menos por sua
obstinação. Ela pelo menos tem personalidade. Mas enxergo que ela tende
a ser manipuladora e que faz de tudo para tirar o máximo de vantagem
dessa situação. Eu sei que, quando me abraça, é a coroa que ela tem no
coração.”
Ele fechou os olhos, como se o que estivesse prestes a dizer fosse a pior parte.
— Ela está me usando, por isso não
me sinto culpado quando a uso. Não me surpreenderia saber que alguém a
encorajou a atirar-se em mim. Posso respeitar os limites de Kriss. E
preferiria muito mais estar nos seus braços, mas você mal tem falado
comigo... Será tão ruim assim que eu deseje quinze minutos sem
preocupações na vida? Para me sentir bem? Para fingir um pouquinho que
alguém me ama? Você pode me julgar se quiser, mas não posso pedir
desculpas por querer algo normal na vida.
Maxon me olhou no fundo dos olhos. Esperava a minha reprovação e, ao mesmo tempo, tinha esperança de que ela não viesse.
— Eu sei como é.
Pensei em Aspen, me abraçando forte e
fazendo promessas. Eu não tinha feito a mesma coisa? Eu quase podia
ouvir o cérebro de Maxon trabalhar a fim de descobrir o quão literais
eram minhas palavras. Esse era um segredo que eu não poderia revelar.
Mesmo se tudo estivesse perdido para mim, não podia deixar Maxon pensar
em mim daquele jeito.
— Você a escolheria? Escolheria Celeste?
Ele veio sentar ao meu lado, movendo-se com cuidado. Eu não conseguia imaginar o quanto suas costas doíam.
— Se fosse obrigado, escolheria Celeste em vez de Elise ou Natalie. Mas isso não vai acontecer a não ser que Kriss decida sair.
— Kriss é uma boa escolha. Será uma princesa muito melhor do que eu jamais seria.
Ele achou graça.
— Ela é menos instigante. Deus sabe o que aconteceria ao país com você à frente.
Eu ri, afinal, ele tinha razão:
— Seria provavelmente a ruína total.
Maxon continuou a sorrir e falou:
— Talvez o país precise ser arruinado.
Permanecemos ali em silêncio por um
momento. Fiquei imaginando como seria nosso mundo arruinado. Não
poderíamos nos livrar da família real, mas talvez pudéssemos mudar a
maneira de fazer certas coisas. Os cargos seriam preenchidos com
eleições e não por herança. E as castas... amaria muito vê-las mortas
para sempre.
— Você me permite uma coisa?
— O quê?
— Bom, eu dividi muitas coisas com
você esta noite que foram difíceis de admitir. Fiquei pensando se você
não me responderia uma pergunta.
Seu rosto era tão sincero que eu não
poderia negar. Esperava não me arrepender do que quer que se tratasse,
mas ele foi mais honesto comigo do que eu mereceria.
— Sim. Qualquer coisa.
Ele engoliu em seco.
— Você em algum momento me amou?
Maxon me olhou nos olhos e imaginei
se ele podia ver a resposta ali. Todas as emoções com que lutei porque
pensei que ele era uma coisa que ele não era; todos os sentimentos que
nunca quis nomear. Encolhi a cabeça.
— Eu sei que quando pensei ser você o
responsável pelo castigo de Marlee me senti arrasada. Não apenas pelo
que aconteceu, mas porque eu não queria achar que você era esse tipo de
pessoa. Eu sei que quando você fala de Kriss ou dos seus beijos em
Celeste... fico com tanto ciúme que mal posso respirar. E sei que quando
conversamos no Halloween, fiquei pensando em nosso futuro. E fiquei
feliz. Sei que se você tivesse feito o pedido, eu teria dito sim — as
últimas palavras saíram como um débil sussurro quase inaudível. — Também
sei — continuei — que nunca soube como lidar com seus encontros com as
outras ou com a sua condição de príncipe. Mesmo com tudo o que você me
contou esta noite, acho que sempre haverá coisas sobre você mesmo que
você esconderá... Mas, apesar de tudo... — e fiz que sim com a cabeça.
Não podia dizer aquelas palavras em voz alta. Se dissesse, como conseguiria partir?
— Obrigado — ele sussurrou. — Pelo
menos agora tenho certeza de que, por um pequeno período do tempo que
passamos juntos, você e eu sentimos a mesma coisa.
Meus olhos incharam, prestes a
derramar mais lágrimas. Ele nunca tinha me dito de verdade que me amava;
tampouco o dizia com todas as letras agora. Mas as palavras estavam
tão, tão perto.
— Eu fui tão idiota — falei,
recuperando o fôlego. Lutei o máximo que pude contra as lágrimas, mas já
não aguentava mais. — Sempre deixei a coroa me assustar e me afastar de
você. Dizia a mim mesma que você não era importante para mim. Sempre
pensava que você tinha mentido para mim, que você não confiava em mim
nem se importava comigo o suficiente. Me deixei acreditar que eu não era
importante para você.
Eu encarei seu rosto e concluí:
— Basta olhar as suas costas para
saber que você faria qualquer droga de coisa por mim. E eu joguei tudo
fora. Acabo de jogar tudo fora...
Ele abriu os braços, e eu me joguei
neles. Maxon me abraçou em silêncio, acariciando meus cabelos. Queria
poder apagar tudo e ficar apenas com aquele momento, aquele breve
segundo em que ele e eu sabíamos o quanto significávamos um para o
outro.
— Por favor, não chore, querida. Eu pouparia suas lágrimas o resto da vida, se pudesse.
— Eu nunca mais vou te ver. É tudo culpa minha — falei, ofegante.
Ele me abraçou mais forte.
— Não, eu devia ter sido mais aberto. Mais paciente. Devia ter pedido sua mão naquela noite em seu quarto.
Ele riu. Levantei os olhos para ele,
sem saber quantos sorrisos daquele eu ainda veria. Os dedos de Maxon
enxugaram as lágrimas das minhas bochechas. Ele continuou ali, me
olhando nos olhos. E eu fazia o mesmo, desejando muito me lembrar disso
no futuro.
— America... Não sei quanto tempo temos juntos, mas não quero gastá-lo com arrependimentos por coisas que deixamos de fazer.
— Nem eu.
Dei um beijo na palma de sua mão.
Então beijei a ponta de seus dedos. Ele deslizou a mesma mão por baixo
dos meus cabelos e empurrou meus lábios para os seus.
Como havia sentido falta desses
beijos, tão serenos, tão certos. Eu sabia que, em toda minha vida, se me
casasse com Aspen ou com outra pessoa, ninguém me faria sentir assim.
Não era como se a minha presença fizesse o mundo dele mais feliz. A sensação que eu tinha era de ser o mundo dele. Não havia explosões. Não havia fogos de artifício. Era uma chama lenta, queimando de dentro para fora.
Trocamos de posição, de modo que eu
fiquei com as costas no chão e ele sobre mim. Ele correu o nariz pelo
meu queixo, pelo meu pescoço, pelo meu ombro e cobriu esse caminho de
beijos na volta até meus lábios. Eu não parava de passar meus dedos por
seu cabelo, tão suave que quase me fazia cócegas na palma das mãos.
Depois de um tempo, pegamos os
cobertores e improvisamos uma cama. Ele me abraçou por mais um tempo,
com seus olhos nos meus. Se não fosse tudo o que eu tinha feito,
poderíamos passar anos fazendo isso.
Assim que a camisa de Maxon secou,
ele a vestiu, cobrindo as manchas secas com seu casaco. Depois, voltou a
se aconchegar em mim. Começamos a conversar, eu não queria dormir nem
por um segundo, e notei que ele também não.
— Você acha que vai voltar para ele? O seu ex?
Não queria falar de Aspen naquele momento, mas pensava nisso.
— Ele é uma boa opção. Inteligente, corajoso, talvez a única pessoa neste planeta que seja mais teimosa do que eu.
Maxon soltou uma risada. Meus olhos fecharam, mas continuei:
— Vai demorar um pouco até que eu possa pensar sobre isso.
— Hmm.
O silêncio se prolongou. Maxon esfregou o polegar contra a minha mão.
— Eu poderia escrever para você? — ele perguntou.
Pensei.
— Talvez você devesse esperar alguns meses. Talvez nem sinta saudade.
Ele quase riu.
— Se você for escrever... deve contar a Kriss.
— Você tem razão.
Ele não explicou se ia contar a ela ou se simplesmente não escreveria, mas naquele momento eu não queria saber.
Não conseguia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo por causa de um livro idiota.
Perdi o fôlego. Meus olhos se arregalaram. Um livro!
— Maxon, e se os rebeldes nortistas estiverem atrás dos diários?
Ele trocou de posição, ainda um pouco distraído.
— O que você quer dizer?
— Quando fugi para o jardim naquele
dia, vi os rebeldes passarem por mim. Uma moça deixou cair uma bolsa
cheia de livros. O cara que estava com ela também tinha um monte. Eles
estão roubando livros. E se estiverem procurando por um título em
particular?
Maxon arregalou os olhos, e depois piscou, submerso em pensamentos.
— America... o que havia exatamente naquele diário?
— Muita coisa. Sobre como Gregory basicamente roubou o país, como impôs as castas ao povo. Era horrível, Maxon.
— Mas o Jornal Oficial saiu
do ar — ele insistiu. — Mesmo que seja isso o que querem, não há como
eles saberem o que é o diário ou do que ele trata. Acredite, depois da
sua apresentação, meu pai vai garantir que os diários fiquem mais
protegidos que o habitual.
— É — eu disse, com a mão na boca para esconder um bocejo. — Eu sei.
— Não — falou Maxon. — Não se preocupe. Pelo que sabemos, eles apenas gostam muito de ler.
Aquela tentativa de piada só me fez soltar um gemido.
— Realmente, eu pensava que não podia piorar as coisas — lamentei.
— Shhh... — foi a reação de Maxon,
ao mesmo tempo que se aproximava mais de mim, com os braços fortes ainda
apoiados no chão. — Não se preocupe agora. Talvez fosse melhor você
dormir.
— Mas eu não quero — falei baixinho, mas me aconcheguei mais em seu corpo.
Maxon fechou os olhos, ainda me abraçando.
— Eu também não. Mesmo em um dia bom, dormir me deixa nervoso.
Meu coração sentiu uma pontada. Não
conseguia imaginar seu constante estado de preocupação, principalmente
por saber que quem o mantinha quase louco era o próprio pai.
Maxon soltou minha mão e procurou
algo em seu bolso. Entreabri os olhos; os dele estavam fechados.
Estávamos quase dormindo. Ele segurou minha mão de novo e começou a
amarrar algo no meu pulso. Reconheci seu presente – o bracelete da Nova
Ásia – assim que senti as contas sobre minha pele.
— Sempre o trago no bolso. Sou um romântico miserável, não acha? Ia guardá-lo, mas quero que você tenha algo de mim.
Ele pôs o bracelete por cima da pulseira com o botão de Aspen. Senti o botão apertado contra minha pele.
— Obrigada. Fico feliz — falei.
— Então também fico.
Não dissemos mais nada.
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